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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

ATENÇÃO!

Inscrições do Vestibular 2010 da UFPE começam nesta sexta-feira
O Fera deve se inscrever exclusivamente pelo site da Covest, até o dia 24 de setembro; veja o calendário
Da Redação do www.pe360graus.com

As inscrições pata o Vestibular 2010 da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) começam nesta sexta-feira (28), às 18h. Os interessados podem se inscrever até o dia 24 de setembro, no mesmo horário, exclusivamente pela internet, no site da Covest.

O processo de inscrição via internet, segundo a Covest, será idêntico ao utilizado no vestibular anterior. A primeira informação que o candidato terá que fornecer será o seu próprio CPF.

Durante o preenchimento do formulário eletrônico, será permitido fazer o upload de uma foto, que será anexada à inscrição. Caso não seja possível fazer o envio do arquivo, ele poderá colar a foto no próprio Comunicado de Confirmação de Inscrição (CCI) que será entregue ao fiscal no primeiro dia de prova. A impressão do CCI ficará a cargo do aluno.

O candidato também vai contar com uma área exclusiva de acesso aos seus no site da Covest. Será nessa área, ele ficará sabendo se sua inscrição foi validada, se o seu CCI já está disponível, se conseguiu isenção de taxa, entre outras informações. Esse acesso será possível a partir do login do candidato (que será o seu próprio CPF), e de uma senha a ser criada no ato da inscrição.

A taxa de inscrição custa R$ 70 e pode ser paga em qualquer agência do Banco do Brasil.

NOVIDADES
Para o Vestibular 2010, a UFPE terá mudanças no número de vagas em alguns cursos e vai mais três novas opções de graduação para os Feras.

O campus Recife passa a oferecer os cursos de Sistemas de Informação e de Engenharia de Materiais. Em Vitória de Santo Antão, será iniciado o curso de Bacharelado em Educação Física.

As duas graduações que vão passar por redução de vagas são Enfermagem/Vitória, que passa de 35 para 30 vagas ofertadas, enquanto Engenharia Cartográfica passa a ter uma única entrada, com 30 vagas. Em relação ao ano passado, haverá um acréscimo total de 521 vagas, ou seja, um aumento de 7,9%.

PROVAS
Com a adoção do Novo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), haverá mudanças no sistema de seleção para a UFPE. A nota do Exame Nacional do Ensino Médio será usada como primeira etapa do Vestibular, mantendo a segunda fase com provas específicas para cada curso.

Não haverá ponto de corte da primeira para a segunda etapa, cujas provas serão específicas para o curso escolhido pelo fera. Se o candidato não faltar aos testes do Enem e conseguir pontuar em todas as provas do Exame Nacional do Ensino Médio, passará automaticamente para a segunda fase. As provas serão realizadas nos dias 20 e 21 de dezembro, das 8h às 12h.

No primeiro dia, os candidatos farão as provas de Português 1 (duas questões discursivas), Língua Estrangeira 1 (composta por oito questões do tipo múltipla escolha, com cinco alternativas, com questões de Espanhol, Francês ou Inglês), História e Química. No dia seguinte, serão aplicados os testes de Geografia, Matemática, Física, Língua Estrangeira 2, Literatura, Biologia, Português 2, Teoria Musical e Geometria Gráfica.

Com exceção da prova de Português 1 e Língua Estrangeira 1, as demais provas conterão 16 questões escritas/ objetivas, de proposições múltiplas e/ou questões de resposta numérica.

RESULTADOS
Na segunda etapa, os conteúdos e os pesos de cada disciplina serão os mesmos dos vestibulares anteriores. Apesar disso, haverá mudanças na composição da nota da primeira etapa.

Até o último vestibular, a primeira etapa era dividida em três partes (Língua Portuguesa, com 12 questões; História/Geografia/Língua Estrangeira, com 28 questões; e Matemática/Física/Química/Biologia, com 40 questões). A nota do candidato era calculada a partir da média aritmética dessas três partes. Ou seja, cada parte valia 33,3% do total da nota do fera na primeira fase.

Como o Enem será composto de cinco avaliações (quatro objetivas e uma redação), o cálculo da nota da primeira etapa precisou ser reajustado. O cálculo da nota será o seguinte: Língua Portuguesa: 30%; Matemática: 15%; Ciências Humanas: 22,5%; Ciências da Natureza: 22,5%. Os 10% restantes, referentes à avaliação de Língua Estrangeira, serão transferidos para a segunda etapa. Para o cálculo do argumento de classificação do candidato, a primeira fase passa a valer 45% do total do argumento de classificação. A segunda etapa valerá 55% da nota final.

Os candidatos farão a redação na primeira etapa, junto com o Enem. A nota informada pela INEP fará parte do cálculo da nota da segunda etapa, mantendo-se o ponto de corte de 2,5 para a redação, que será liberada no dia 8 de janeiro. Com isso, o listão dos classificados será divulgado até o dia 31 de janeiro de 2010.

CRONOGRAMA DO VESTIBULAR 2010

DATA

EVENTO

24/08 a 26/08
Solicitação de isenção da taxa de inscrição (apenas via internet)

28/08 a 24/09
Inscrições para o Vestibular 2010 UFPE (apenas via internet)

19/09/2009
Publicação nominal dos candidatos beneficiados com Isenção Total ou Parcial da taxa de inscrição

21/09 a 24/09
Inscrição dos candidatos que obtiveram isenção da taxa de inscrição

25/09/2009
- Último dia para pagamento de boleto referente a taxa de inscrição.
- Último dia para portador de necessidades especiais requerer atendimento especial durante a aplicação das provas.

03/10 e 04/10/2009
Aplicação das provas da Primeira Etapa - Provas do Enem

08/11/2009
Teste de Habilidades Específicas – Solfejo - para todos os candidatos ao Curso de Música (Bacharelado e Licenciatura)

Até 11/11/2009
Divulgação dos Resultados da Prova de Solfejo

15/11/2009
- Teste de Habilidades Específicas – Instrumento - para os candidatos ao Curso de Música (Bacharelado/Instrumento e Bacharelado/Canto)
- Teste de Aptidão para Dança para os candidatos ao curso de Licenciatura em Dança

Até 18/11/2009
- Resultado Final do Teste de Habilidade em Música
- Resultado Final do Teste de Aptidão para Dança

20 e 21/12/2009
Aplicação das provas da segunda etapa

22/12/2009
Data limite para apresentação de recursos quanto ao gabarito das provas escritas/objetivas

Até 31/01/2010
Resultado do Vestibular 2010

VOCÊ SABIA...

O escritor Wolfgang von Goethe escrevia em pé. Ele mantinha em sua casa uma escrivaninha alta.
O escritor Pedro Nova parafusava os móveis de sua casa a fim que ninguém o tirasse do lugar.

O escritor Wolfgang von Goethe escrevia em pé. Ele mantinha em sua casa uma escrivaninha alta.
O escritor Pedro Nova parafusava os móveis de sua casa a fim que ninguém o tirasse do lugar.

Gilberto Freyre nunca manuseou aparelhos eletrônicos. Não sabia ligar sequer uma televisão. Todas as obras foram escritas a bico-de-pena, como o mais extenso de seus livros, Ordem e Progresso, de 703 páginas.

Euclides da Cunha, Superintendente de Obras Públicas de São Paulo, foi engenheiro responsável pela construção de uma ponte em São José do Rio Pardo (SP). A obra demorou três anos para ficar pronta e, alguns meses depois de inaugurada, a ponte simplesmente ruiu. Ele não se deu por vencido e a reconstruiu. Mas, por via das dúvidas, abandonou a carreira de engenheiro.

Machado de Assis, nosso grande escritor, ultrapassou tanto as barreiras sociais bem como físicas. Machado teve uma infância sofrida pela pobreza e ainda era miope, gago e sofria de epilepsia. Enquanto escrevia Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado foi acometido por uma de suas piores crises intestinais, com complicações para sua frágil visão. Os médicos recomendaram três meses de descanso em Petrópolis. Sem poder ler nem redigir, ditou grande parte do romance para a esposa, Carolina.

Graciliano Ramos era ateu convicto, mas tinha uma Bíblia na cabeceira só para apreciar os ensinamentos e os elementos de retórica. Por insistência da sogra, casou na igreja com Maria Augusta, católica fervorosa, mas exigiu que a cerimônia ficasse restrita aos pais do casal. No segundo casamento, com Heloísa, evitou transtornos: casou logo no religioso.

Aluísio de Azevedo tinha o hábito de, antes de escrever seus romances, desenhar e pintar, sobre papelão, as personagens principais mantendo-as em sua mesa de trabalho, enquanto escrevia.

José Lins do Rego era fanático por futebol. Foi diretor do Flamengo, do Rio, e chegou a chefiar a delegação brasileira no Campeonato Sul-Americano, em 1953.

Aos dezessete anos, Carlos Drummond de Andrade foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), depois de um desentendimento com o professor de português. Imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém notou. Tinha a mania de picotar papel e tecidos. "Se não fizer isso, saio matando gente pela rua". Estraçalhou uma camisa nova em folha do neto. "Experimentei, ficou apertada, achei que tinha comprado o número errado. Mas não se impressione, amanhã lhe dou outra igualzinha."

Numa das viagens a Portugal, Cecília Meireles marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar, a explicação para o "furo": Fernando Pessoa tinha lido seu horóspoco pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.

Érico Veríssimo era quase tão taciturno quanto o filho Luís Fernando, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação final.

Clarice Lispector era soitária e tinha crises de insônia. Ligava para os amigos e dizia coisas pertubadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.

Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura. "Para ele, era licor", diverte-se Joyce, a neta do escritor. Também tinha mania de consertar tudo. "Mas para arrumar uma coisa, sempre quebrava outra."

Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: "O senhor gosta de Camões?" Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos.

Fernando Sabino foi escoteiro dos nove aos treze anos. Nadador do Minas Tênis Clube, ganhou o título de campeão mineiro em 1939, no estilo costas.

Guimarães Rosa, médico recém-formado, trabalhou em lugarejos que não constavam no mapa. Cavalgava a noite inteira para atender a pacientes que viviam em longínquas fazendas. As consultas eram pagas com bolo, pudim, galinha e ovos. Sentia-se culpado quando os pacientes morriam. Acabou abandonando a profissão. "Não tinha vocação. Quase desmaiava ao ver sangue", conta Agnes, a filha mais nova.

Mário de Andrade provocava ciúmes no antropólogo Lévi-Strauss porque era muito amigo da mulher dele, Dina. Só depois da morte de Mário, o francês descobriu que se preocupava em vão. O escritor era homossexual.

Vinicius de Moraes, casado com Lila Bosco, no início dos anos 50, morava num minúsculo apartamento em Copacabana. Não tinha geladeira. Para aguentar o calor, chupava uma bala de hortelã e, em seguida, bebia um copo de água para ter sensação refrescante na boca.

José Lins do Rego foi o primeiro a quebrar as regras na ABL, em 1955. Em vez de elogiar o antecessor, como de costume, disse que Ataulfo de Paiva não poderia ter ocupado a cadeira por faltar-lhe vocação.

Rodaram o videoteipe para confirmar a validade de um lance contra o seu Fluminense. Foi unanimidade: pênalti claro. Nelson Rodrigues gritou: "Câmera em mim! Se o videoteipe diz que foi pênalti, pior para ele. O videoteipe é burro! E é só o que tenho a dizer."

Para agradar ao poeta, Chico Buarque "escalou" um jogador do Náutico na Seleção Brasileira, de brincadeirinha. João Cabral de Melo Neto agradeceu a homenagem, com uma ressalva: "Meu time é o América do Recife".

Castro Alves morreu com apenas 24 anos, nasceu em 1847 vindo a falecer em 1871.

J.K Roling (Escritora de Harry Potter) comeceu a escrever seu primeiro livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, em guardanapos em um bar que frequentava, e ao terminar o livro ficou com uma terrível dúvida: escolher se comprar leite para sua filha ou mandava seu livro pra editora, hoje elá é milionaria !

Jorge Amado para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. "Por quê?", perguntavam os jornalistas, Jorge respondeu: "O motivo é simples: nós somos amantes." Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal disse: "Muito prazer, encantado." Era piada. Os dois nem se conheciam até então. ;o)www.danilomarques.com.br/page13.php

sábado, 22 de agosto de 2009

Curiosidade histórico-geográfica

Bandeira Nacional



A Bandeira Nacional é um dos Símbolos Nacionais, assim como o são o Hino Nacional, as Armas Nacionais e o Selo Nacional.

É o Símbolo da nossa Pátria.O Símbolo do Brasil.
A Bandeira Nacional possui um hino específico: o Hino da Bandeira Nacional;
e um dia de comemoração: 19 de Novembro - Dia da Bandeira.

Adotada pelo Decreto nº 4, de 19 de novembro de 1889.
Regulada pela Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971, alterada pela Lei
nº 8.421, de 11 de maio de 1992.
Desenho modular

M (módulo) é um segmento retilíneo arbitrário consoante o tamanho da bandeira. Assim, 14 M será sua largura, 20 M será seu comprimento e 3,5 M, o raio do círculo.








Antes da bandeira atual, o Brasil teve outras 12 bandeiras.

Bandeira de Ordem de Cristo (1332 - 1651)
A Ordem de Cristo, rica e poderosa, patrocinou as grandes navegações lusitanas e exerceu grande influência nos dois primeiros séculos da vida brasileira. A cruz de Cristo estava pintada nas velas da frota cabralina e o estandarte da Ordem esteve presente no descobrimento de nossa terra, participando das duas primeiras missas. Os marcos traziam de um lado o escudo português e do outro a Cruz de Cristo.


Bandeira Real (1500 - 1521)
Era o pavilhão oficial do Reino Português na época do descobrimento do Brasil e presidiu a todos os acontecimentos importantes havidos em nossa terra até 1521. Como inovação apresenta, pela primeira vez, o escudo de Portugal


Bandeira de D. João III (1521 - 1616)
O lábaro desse soberano, cognominado o "Colonizador", tomou parte em importantes eventos de nossa formação histórica, como as expedições exploradoras e colonizadoras, a instituição do Governo Geral na Bahia em 1549 e a posterior divisão do Brasil em dois Governos, com a outra sede no Maranhão.


Bandeira do Domínio Espanhol (1616 - 1640)

Este pendão, criado em 1616, por Felipe II da Espanha, para Portugal e suas colônias, assistiu às invasões holandesas no Nordeste e ao início da expansão bandeirante, propiciada, em parte, pela "União Ibérica".

Bandeira da Restauração ( 1640 - 1683)
Também conhecida como "Bandeira de D. João IV", foi instituída, logo após o fim do domínio espanhol, para caracterizar o ressurgimento do Reino Lusitano sob a Casa de Bragança O fato mais importante que presidiu foi a expulsão dos holandeses de nosso território. A orla azul alia à idéia de Pátria o culto de Nossa Senhora da Conceição, que passou a ser a Padroeira de Portugal, no ano de 1646.

Bandeira do Principado do Brasil (1645 - 1816)
O primeiro pavilhão elaborado especialmente para o Brasil. D João IV conferiu a seu filho Teodósio o título de "Príncipe do Brasil", distinção transferida aos demais herdeiros presuntivos da Coroa Lusa. A esfera armilar de ouro passou a ser representada nas bandeiras de nosso País.


Bandeira de D. Pedro II, de Portugal (1683 - 1706)
Esta bandeira presenciou o apogeu de epopéia bandeirante, que tanto contribuiu para nossa expansão territorial. É interessante atentar para a inclusão do campo em verde (retângulo), que voltaria a surgir na Bandeira Imperial e foi conservado na Bandeira atual, adotada pela República.


Bandeira Real Século XVII (1600 - 1700)
Bandeira Real Século XVII (1600 - 1700). Esta bandeira foi usada como símbolo oficial do Reino ao lado dos três pavilhões já citados, a Bandeira da restauração, a do Principado do Brasil e a Bandeira de D. Pedro II, de Portugal.


Bandeira do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve (1816-1821)
Criada em conseqüência da elevação do Brasil à categoria de Reino, em 1815, presidiu as lutas contra Artigas, a incorporação da Cisplatina, a Revolução Pernambucana de 1817 e, principalmente, a conscientização de nossas lideranças quanto à necessidade e à urgência de nossa emancipação política. O Brasil está representando nessa bandeira pela esfera armilar de ouro, em campo azul, que passou a constituir as Armas do Brasil Reino.


Bandeira do Regime Constitucional ( 1821- 1822)
A Revolução do Porto, de 1820, fez prevalecer em Portugal os ideais liberais da Revolução Francesa, abolindo a monarquia absoluta e instituindo o regime constitucional, cujo pavilhão foi criado em 21 de agosto de 1821. Foi a última bandeira Lusa a tremular no Brasil.


Bandeira Imperial do Brasil (1822 - 1889)
Criada por Decreto de 18 de setembro de 1822, era composta de um retângulo verde e nele, inscrito, um losango ouro, ficando no centro deste o Escudo de Armas do Brasil. Assistiu ao nosso crescimento como Nação e a consolidação da unidade nacional.


Bandeira Provisória da República (15 a 19 Nov 1889)
Esta bandeira foi hasteada na redação do jornal "A Cidade do Rio", após a proclamação da República, e no navio "Alagoas", que conduziu a família imperial ao exílio.



A bandeira atual do Brasil adotada pela República mantém a tradição das antigas cores nacionais, verde e amarelo, do seguinte modo: um losango amarelo em campo verde, tendo no meio a esfera celeste azul, atravessada por uma zona branca, em sentido oblíquo e descendente da esquerda para a direita, com a legenda, Ordem e Progresso, e pontuada por vinte e uma estrelas, entre as quais as da constelação do CRUZEIRO, dispostas na sua situação astronômica, quanto a distância e ao tamanho relativos, representando os Estados da República e o Município Neutro.

A Bandeira Nacional foi adotada por decreto (redigido por Rui Barbosa) em 19 de novembro de 1889, sendo alterada (a esfera celeste) sempre que um novo Estado é criado ou extinto.
Foi projetada por Raimundo Teixeira Mendes, com a colaboração de Miguel Lemos. O professor Manuel Pereira Reis, catedrático em Astronomia da Escola Politécnica tratou da posição das estrelas e o desenho foi executado por Décio Vilares.
A primeira bandeira republicana foi bordada por D. Flora Simas de Carvalho.
Sua confecção, exibição e uso obedecem a rigorosas normas.


Significados dos Detalhes da Bandeira


O retângulo e o losango estão presentes com as mesmas tonalidades na bandeira imperial, mostrando que a bandeira republicana não rompeu definitivamente com o Império.
O losango, em particular, é a representação da mulher na posição de mãe, esposa, irmã e filha.

A esfera é o antigo símbolo do mundo, unindo o Brasil a Portugal através de D. Manuel, em cujo reinado se deu o descobrimento.
Ela é também um antigo emblema romano, presente na bandeira do Principado do Brasil instituída por D. João IV, onde já constava a faixa branca (faixa zodiacal).

O verde da bandeira tem muitos significados, pois remonta ao primeiro objeto que provavelmente funcionou como bandeira: ramos de árvores arrancados em instantes de alegria espontânea.
No bandeira do Brasil o verde tem outros significados históricos, como a Casa de Bragança, a filiação com a França e o estandarte dos Bandeirantes.


O amarelo recorda o período imperial e, poeticamente, é a representação do Sol.
Essa cor recorda a Casa dos Habsburgos e também a Casa de Castela e a Casa de Lorena, a que pertencia D. Leopoldina, esposa de D. Pedro I.
Combinado ao verde, o amarelo irmaniza-nos com os povos africanos.
O azul, juntamente com o branco também remonta a nacionalidade lusitana, bem como homenageia a história do Cristianismo e a mãe de Jesus, padroeira de Portugal e do Brasil.
O branco, plenitude das cores, traduz os desejos de paz.

Vale destacar também a ausência do vermelho e do preto, excluindo da bandeira lembranças de guerras, ameaças e agressões.

A estrela isolada é Spica, a principal estrela (estrela alfa) da constelação de Virgem.

Na bandeira do Brasil, Spica tornou-se a representação do Estado do Pará, pois este era o Estado da União com maior parte de seu território acima da linha do equador (Amapá e Roraima tornaram-se Estados somente em 1988).

Sua posição na bandeira revela a extensão territorial do Brasil:
nenhum outro país do mundo, com dimensão geográfica semelhante,
ocupa parte dos dois hemisférios da Terra.

Muitos pensam que a estrela isolada representa o Distrito Federal

Mas o Distrito Federal é representado por uma estrela mais significativa do ponto de vista simbólico: Sigma do Oitante.

Sigma do Oitante está numa região do firmamento bem próxima do pólo celeste sul (que é a projeção do pólo sul terrestre na esfera celeste).

Dessa posição singular resulta que todas as estrelas visíveis no céu do Brasil descrevem arcos em torno de Sigma do Oitante.
Assim, Sigma do Oitante pode ser observada de praticamente todo o território brasileiro, a diferentes alturas do horizonte, sem nunca nascer ou se pôr.

Está sempre no céu, em qualquer dia e horário.

Este é, sem dúvida, um significado bastante apropriado para representar o Município Neutro da União.


A disposição das estrelas na bandeira do Brasil reproduzem parte de uma esfera celeste vista como se estivesse nas mãos de um artista, que a inclinou segundo a latitude da cidade do Rio de Janeiro no dia 15 de novembro de 1889, às 12 horas siderais, instante em que a constelação do Cruzeiro do Sul tem seu eixo maior na vertical. Doze horas siderais correspondem às 08 h e 37 min da manhã. É portanto um céu diurno. O Sol já está acima do horizonte e não é possível observar estrela alguma no céu.
Ainda que fosse, suas posições estariam invertidas, uma vez que observar o modelo de uma esfera celeste é como ver o firmamento refletido







Regimento Legal

LEI N. 5.700 - DE 1º DE SETEMBRO DE 1971


CAPÍTULO II
Da Forma dos Símbolos Nacionais
SEÇÃO I
Dos Símbolos em Geral


Art. 2o Consideram-se padrões dos Símbolos Nacionais os modelos compostos de conformidade com as especificações e regras básicas estabelecidas na presente Lei.


SEÇÃO II
Da Bandeira Nacional


Art. 3o A Bandeira Nacional, adotada pelo decreto n. 4, de 19 de novembro de 1889, com as modificações feitas da Lei n. 5.443, de 28 de maio de 1968 (Anexo n. 1) fica alterada na forma do Anexo I desta lei, devendo ser atualizada sempre que ocorrer a criação ou a extinção de Estados. (Refere-se à lei N. 8.421 de 11 de Maio de 1992).

Parágrafo Primeiro - As constelações que figuram na Bandeira Nacional correspondem ao aspecto do céu, na cidade do Rio de Janeiro, às 8 horas e 30 minutos do dia 15 de novembro de 1889 (doze horas siderais) e devem ser consideradas como vistas por um observador situado fora da esfera celeste. (Modificação feita pela lei N. 8.421 de 11 de Maio de 1992).

Parágrafo Segundo - Os novos Estados da Federação serão representados por estrelas que compõe o aspecto celeste referido no parágrafo anterior, de modo a permitir-lhes a inclusão no círculo azul da Bandeira Nacional sem afetar a disposiçao estética original constante do desenho proposto pelo Decreto n. 4, de 19 de novrembro de 1889. (Modificação feita pela lei N. 8.421 de 11 de Maio de 1992).

Parágrafo Terceiro - Serão suprimidas da Bandeira Nacional as estrelas correspondentes aos Estados extintos, permanecendo a designada para representar o novo Estado, resultante de fusão, observado, em qualquer caso, o disposto na parte final do parágrafo anterior.

Art. 4o A Bandeira Nacional em tecido, para as repartições públicas em geral, federais, estaduais, e municipais, para quartéis e escolas públicas e particulares, será executada em um dos seguintes tipos: tipo 1, com um pano de 45 centímetros de largura; tipo 2, com dois panos de largura; tipo 3, três panos de largura; tipo 4, quatro panos de largura; tipo 5, cinco panos de largura; tipo 6, seis panos de largura; tipo 7, sete panos de largura. Parágrafo único. Os tipos enumerados neste artigo são os normais. Poderão ser fabricados tipos extraordinários de dimensões maiores, menores ou intermediarias, conforme as condições de uso, mantidas, entretanto, as devidas proporções.





Relações entre as estrelas e os estados da Federação
Acre Gama da Hidra Fêmea
Amapá Beta do Cão Maior
Amazonas Procyon (Alfa do Cão Menor)
Pará Spica (Alfa da Virgem)
Maranhão Beta do Escorpião
Piauí Antares (Alfa do Escorpião)
Ceará Epsilon do Escorpião
Rio Grande do Norte Lambda do Escorpião
Paraíba Capa do Escorpião
Pernambuco Mu do Escorpião
Alagoas Teta do Escorpião
Sergipe Iotá do Escorpião
Bahia Gama do Cruzeiro do Sul
Espírito Santo Epsilon do Cruzeiro do Sul
Rio de Janeiro Beta do Cruzeiro do Sul
São Paulo Alfa do Cruzeiro do Sul
Paraná Gama do Triângulo Austral
Santa Catarina Beta do Triângulo Austral
Rio Grande do Sul Alfa do Triângulo Austral
Minas Gerais Delta do Cruzeiro do Sul
Goiás Canopus (Alfa de Argus)
Mato Grosso Sirius (Alfa do Cão Maior)
Mato Grosso do Sul Alfard (Alfa da Hidra Fêmea)
Rondônia Gama do Cão Maior
Roraima Delta do Cão Maior
Tocantins Epsilon do Cão Maior
Brasília (DF) Sigma do Oitante

Art. 5o A feitura da Bandeira Nacional obedecerá às seguintes regras (Anexo n. 2):

I - Para cálculo das dimensões, tomar-se-á por base a largura desejada, dividindo-se esta em 14 (quatorze) partes iguais. Cada uma das partes será considerada uma medida ou módulo.

II - O comprimento será de vinte módulos (20M).

III - A distância dos vértices do losango amarelo ao quadro externo será de um módulo e sete décimos (1,7M).

IV - O círculo azul no meio do losango amarelo terá o raio de três módulos e meio (3,5M).

V - O centro dos arcos da faixa branca estará dois módulos (2M) à esquerda do ponto do encontro do prolongamento do diâmetro vertical do círculo com a base do quadro externo (ponto C indicado no Anexo n. 2).

VI - O raio do arco inferior da faixa branca será de oito módulos (8M); o raio do arco superior da faixa branca será de oito módulos e meio (8,5M).

VII - A largura da faixa branca será de meio módulo (0,5M).

VIII - As letras da legenda Ordem e Progresso. serão escritas em cor verde. Serão colocadas no meio da faixa branca, ficando, para cima e para baixo, um espaço igual em branco. A letra P ficará sobre o diâmetro vertical do circulo. A distribuição das demais letras far-se-á conforme a indicação do Anexo n. 2. As letras da palavra Ordem e da palavra Progresso terão um terço de módulo (0.33M) de altura. A largura dessas letras será de três décimos de módulo (0.30M). A largura dessa letra será de um quarto de módulo (0.25M).

IX - As estrelas serão de 5 (cinco) dimensões: de primeira, segunda, terceira, quarta e quinta grandezas. Devem ser traçadas dentro de círculos cujos diâmetros são de três décimos de módulo (0,30M) para as de primeira grandeza; de um quarto de módulo (0,25M) para as de segunda grandeza; de um quinto de módulo (0,20M) para as de terceira grandeza; de um setimo de módulo (0,14M) para as de quarta grandeza; e de um décimo de módulo (0,10M) para a de quinta grandeza.

X - As duas faces devem ser exatamente iguais, com a faixa branca inclinada da esquerda para a direita (do observador que olha a faixa de frente), sendo vedado fazer uma face como avesso da outra.



Uso da Bandeira
Regulado pela Lei Nº 5.700, de 1º de setembro de 19711971


COMPOSIÇÃO ARTÍSTICA

Em flâmulas, escudos e panóplias,igual ou maior que as demais e em destaque

PROPORÇÃO BANDEIRA E MASTRO EM LINHA DE MASTROS

Sua largura não deve ser maior que1/5 nem menor que 1/7 da alturado mastro Posição central ou mais próximado centro. Com número par de bandeiras, à direita do dispositivo

EM RECINTO FECHADO

Em mastro, à direita da mesa Desfraldada, acima da cabeça do presidente da sessão

EM FUNERAL E LUTO OFICIAL

Colocada sobre ataúdes A meio-mastro, quando hasteada.

EM DESFILES CIVIS

Desfraldada ou em mastro,destacada à frente das demais

PORTA-BANDEIRA SAUDAÇÕES MILITARES

Posição de descansar,ombro-armas e em continência Abater espadas, continência individual e apresentar-armas

SAUDAÇÕES CIVIS DESFRALDADA

De pé, descoberto, em silêncio e com respeito Em edifícios

REPRODUZIDA À NOITE

Em aeronaves Deve estar iluminada


Nas escolas, públicas ou particulares, é obrigatório o hasteamento solene da Bandeira Nacional, durante o ano letivo, pelo menos uma vez por semana.

OBS:Lembre-se Não se aplaude, Não se toca, Não se Beija, Não se chora, Não se faz continencia a Bandeira!!






Hino à Bandeira


Juvenil ou Varonil?


Retirado do Noticiário do Exército n.º 9352, de 04 de fevereiro de 1998

Juvenil ou varonil ? Esta é a dúvida que todo ano surge acerca da letra do Hino à Bandeira, haja vista circularem versões contendo as duas expressões.

Em face do problema, foi empreendida uma pesquisa junto à Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, ao Centro de Documentação do Exército e à própria biblioteca do Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEX).

O Hino à Bandeira surgiu de um pedido feito pelo Prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, ao poeta Olavo Bilac para que compusesse um poema em homenagem à Bandeira, encarregando o professor Francisco Braga, da Escola Nacional de Música, de criar uma melodia apropriada à letra. Em 1906, o hino foi adotado pela prefeitura, passando, desde então, a ser cantado em todas as escolas do Rio de Janeiro. Aos poucos, sua execução estendeu-se às corporações militares e às demais unidades da Federação, transformando-se, extra-oficialmente, no Hino à Bandeira Nacional, conhecido de todos os brasileiros.

O Boletim do 1º Trimestre de 1906 da Intendência Municipal, publicado pela Diretoria Geral de Polícia Administrativa, Arquivo e Estatística, da Prefeitura do Rio de Janeiro, apresenta a letra e a partitura do Hino à Bandeira, como resultado das gestões de Francisco Pereira Passos. Nessa publicação — a mais antiga dentre as levantadas — aparece a palavra juvenil.

A 2ª edição do livro "A Bandeira do Brasil", de Raimundo Olavo Coimbra, publicada em 1979 pelo IBGE, em sua página 505, publica o hino com a palavra juvenil no estribilho.

Não existe nenhum ato oficial do governo federal adotando ou modificando a letra do Hino à Bandeira.

Diante do acima exposto, o CCOMSEX decidiu publicar no NE a versão do Hino à Bandeira que contém a palavra juvenil no estribilho, uma vez que assim consta na publicação mais antiga do hino que se tem notícia e considerando, ainda, a inexistência de qualquer ato oficial do governo federal acerca do assunto. Levou-se em consideração, finalmente, a participação de organizações militares (OM) nas cerimônias de culto à Bandeira em praças públicas. Esses eventos, mediante incentivo de nossas OM, vêm contando com presença significativa de estabelecimentos de ensino civis, onde vigora a versão do hino com a expressão juvenil no estribilho, havendo, portanto, a necessidade de uniformizar o canto do Hino à Bandeira entre civis e militares.

Mais detalhes sobre o Hino à Bandeira podem ser encontrados nas seguintes publicações:

- Enciclopédia de Educação Moral, Cívica e Política, de Douglas Michalany e Ciro de Moura Ramos, Editora Michalany, ano de 1973; e

- História de Nossos Hinos, de Décio Leal Pereira de Souza, Biblioteca Nacional, ano de 1991.


consulta: http://www.exercito.gov.br/01inst/Hinoscan/juvenil.htm

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

SOBRE O POETA MANOEL DE BARROS

Sobre o poeta Manoel de Barros
15.11.2006 - Caderno Cultura

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MANOEL DE BARROS: a poética da reinvenção
O motivo central dessa edição é uma investigação acerca de determinados recursos estilísticos e explorações semânticas que se comportam como elementos recorrentes na escritura do poeta Manuel de Barros, (natural de Corumbá, Mato Grosso - 1916) cuja projeção nacional se deu a partir dos anos 1980, mas que, de há muito, já vinha chamando a atenção dos críticos e dos analistas acadêmicos, especialmente por conta de uma dicção própria, concentrada, de modo mais intenso, na captação das coisas simples do dia-a-dia, mesmo que estas nem sempre comportem a atmosfera do que a tradição acostumou-se a identificar como inerente ao material poético.
Carlos Augusto Viana
Editor
O trabalho de Manoel de Barros, trata-se, portanto, de uma poesia intrigante, desafiadora e, sobretudo, inaugural. Seus livros já antecipam a estranheza poética nos próprios títulos, tais como: ´Poemas concebidos sem pecados´ (1937), ´Face imóvel´ (1942), ´Compêndio para uso dos pássaros´ (1961), ´Gramática explosiva do chão´ (1969), ´Arranjos para assobio´ (1983), ´livro de pré-coisas´ (1986), ´O guardador de águas´ (1989), ´O livro das ignorãças´ (1993), ´Livro sobre o nada´; (1996), ´Retrato do artista quando coisa´ (1998), dentre outros. Percorrermos, assim, um dos múltiplos caminhos desse poeta lavrador que colhe do chão as palavras.
Se, em João Cabral de Melo Neto, havemos a identificação da palavra com a pedra, isto é, a idéia de uma aprendizagem do poeta no sentido de tirar lições da pedra: com esta podendo aprender a exatidão da forma, a impassibilidade, a resistência à porosidade, sendo, portanto, impermeável a sentimentalismo, sob a severidade das rimas toantes; em Manoel de Barros, se sedimenta a concepção da palavra como um organismo vivo: a palavra-vegetal, a palavra-animal:

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

ou, quando não, a palavra-mineral - mas esta, ao contrário da palavra-pedra em João Cabral, extática e impassível, anuncia-se portadora de anima:

Adoecer de nós a Natureza:
- botar a aflição nas pedras.

Como se vê, a palavra, enquanto morada do poético, imprime-se como a marca fundamental da criação literária de Manoel de Barros. É daí que resulta a sua poesia, ou seja, do seu próprio cotidiano com as palavras, estabelecendo entre elas novas relações, produzindo efeitos novos, para, assim, poder extrair a forma oculta que se toda forma abriga. Tudo nele é preocupação com a linguagem, ´uma vontade de recuperar a virgindade das palavras. A sua atitude de casar uma palavra já gasta com outra também gasta parece produzir a primeira vez de uma palavra´. (Barbosa, 2003, p.17) Nesse sentido, o poeta busca não apenas simples relações semânticas, pois, mais que isso, aspira às ressonâncias, aos ritmos inefáveis, às inumeráveis sensações:

Mas eram coisas desnobres como intestinos de moscas
que se mexiam por dentro de suas palavras.
Gostava de desnomear:
para falar barranco dizia: lugar onde avestruz
esbarra.
Rede era vasilha de dormir.
Traços de letras
que um dia encontrou nas pedras de
uma gruta, chamou: desenhos de uma voz.
Penso que fosse um escorço de poeta.

A poética de Manoel de Barros se enquadra na categoria daquelas coisas que, segundo Santo Agostinho, existiam para ser desfrutadas, isto é, prazer em si mesmo. Nesse sentido, o discurso é elaborado a partir de um entrelaçamento de palavras para que desemboquem sempre num jogo de pensamento, do qual se depreende o inesperado ou a estranheza:

Desinventar objetos.
O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

Eis o universo de Manoel de Barros: a invenção. Ou reinvenção. Há, em toda a sua construção poética, o gosto pelo desvio ou o gozo de palmilhar o não-sabido. Persegue, sobretudo, o nada, pois é daí que espera extrair a essência do que desconhece. Trata-se, a rigor, de uma aprendizagem às avessas: desaprender para, assim, ter condições de que apalpar o invisível; desse modo, ignorando as coisas pode, enfim, reencontrá-las.

A primeira parte do Livro das Ignorãças tem como título ´Uma didática da invenção´, e a epígrafe bem sintetiza os poemas: ´As coisas que não existem são mais bonitas´, isto é, a poesia habita o gênesis, daí a reiteração dos exercícios de metalinguagem, uma vez que a poesia quer conhecer a si mesma, anseia deparar o que havia na imagem antes que esta se revelasse. Memória e aprendizagem se inter-relacionam. Em Manoel de Barros ocorre, exatamente, aquela epifania drummoniana do ´esquecer para lembrar´:

Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que
[ é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
o verbo tem que pegar delírio.

Nesse excerto, - como em tantos outros - observa-se que as palavras gravitam as altas zonas da linguagem, à semelhança dos pontos privilegiados que a magia discerne e une misteriosamente no mundo: a ´criança´, ao mudar ´a função de um / verbo´, não delira, mas, sim, o próprio ´verbo´, tocado, agora, pela transformação; por isso, o poético reside em ´fazer nascimentos´, em entregar as palavras ao delírio.

Insetos que se arrastam, árvores que voam, arbustos que cantam - tudo isso implica, na poética de Manoel de Barros, o desdobramento de imagens que comunicam a revelação. As palavras se movem no poema, e o leitor nunca se cansa de se surpreender; a poesia concretiza, pela força da imaginação, o pensamento especulativo no próprio âmago do espírito:

Para entender nós temos dois caminhos:
[o da sensibilidade que é o entendimento
do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento
do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
[mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.

Nesse exercício de metalinguagem, o poeta aborda, com extrema agudeza, a problemática do que a poesia comunica, cuja natureza, como se vê, é, essencialmente, inefável. O estado poético, portanto, comporta a desintegração das coisas, a decomposição da crosta que as envolve: ´Desaprender oito horas por dia ensina os princípios´. Em outras palavras, o estado poético consiste em mergulhar no avesso das coisas, em descascar o que há muito já se encontra cristalizado pela cultura. Ser poeta é inverter. Ser poeta é transgredir:

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
poesia é quando a tarde está competente para
dálias.
É quando
ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
e um sapo engole as auroras.

Das imagens do ´dia (que) dorme antes´; da ´tarde (que) está competente para / dálias´; do ´sapo (que) engole as auroras´, brota o estado poético que o autor inscreve em cada um de nós - os leitores. Todos nos tornamos, então, cúmplices dessa música, do encantamento que suscita. Os seres, as coisas, os sentimentos saem, subitamente, de sua existência ordinária em direção ao indefinível - e o que conhecemos muda, magicamente, de valor. Tudo se converte em música. Não uma música qualquer, mas uma outra que percorre todos os nossos sentidos e nos solicita por inteiro:

Insetos cegam meu sol.
Há um azul em abuso de beleza.
Lagarto curimpãpã se agarrou no meu remo.
Os bichos tremem na popa.
Aqui até a cobra eremisa, usa touca, urina na fralda.
Na frente do perigo bugio bebe gemada.
Periquitos conversam baixo.

Eis, em síntese, o discurso literário de Manoel de Barros, de que se evola um universo singularmente harmonioso, uma vez que tal harmonia advém da própria poesia, que nos torna ressonantes e consoantes com ela. Um universo que permanece em nós, exatamente porque não nos é imposto, mas tão-somente sugerido. É o sonho que emana de uma percepção.

15.11.2006 - Caderno Cultura

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MANOEL DE BARROS
Aspectos ESTILÍSTICOS E SEMÂNTICOS

Nos poemas de Manuel de Barros, há uma forte carga semântica e estilística, pois o poeta brinca com as palavras, mudando, muitas vezes, o significado real que possuem. Como ilustração, cito o poema VI, integrante da parte inicial de O livro das ignorãças (publicado em 1993), chamado ´Uma didática da invenção´, parte em que o poeta define como é o seu fazer poético:

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, Onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

Notamos, no poema acima, o relato da origem, mostrando que é notório o valor soberano da palavra. Sobretudo, o eu lírico faz lembrar das expressões presentes no livro bíblico de João 1:1, que ora: ´No começo era o Verbo´ e, anterior ao cristianismo, havia uma visão mítica de que Deus empregou a palavra como forma de expressão e como instrumento de criação de todos os seres.

Está clara a soberania da palavra, pois o verbo no 1º verso é uma metáfora para a linguagem, nos inferindo que o verdadeiro autor de um poema não é nem o poeta nem o escritor, mas sim a linguagem.

Nessa brincadeira poética, o eu lírico manipula a linguagem, introjetando neologismos na incorporação do prefixo des- na palavra ´começo´ , resultando ´descomeço´. Esse termo inaugura um novo paradigma que constrói a transposição do discurso sagrado ao profano. Até mesmo a maiúscula alegorizante do verbo perde-se, por isso, através da inversão estabelecida pela ordem, que há uma transgressão da esfera divina para a profana.

Têm-se dois momentos míticos, são eles: ´No descomeço (1º verso) e o ´começo´ (3º verso). O primeiro nos remete ao tempo inicial marcado pelo ´verbo´; já o segundo é o posterior e formado pelo ´delírio do verbo´. Notamos a personificação (prosopopéia) do verbo que se torna exaltado, entusiasmado, assim como temos a informação de que depois do ´descomeço´ é o ´começo´.

Os versos nº 4 e 5: ´Onde a criança diz: eu escuto a cor dos passarinhos´ nos remetem à fala sinestésica da criança, fazendo-nos perceber a mistura de sentidos humanos: audição e visão em ´escuto a cor dos passarinhos´.

Em seguida, mostramos novamente nos últimos versos, o processo de personificação do verbo em ´a criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som´. No entanto, ´caso a criança mude a função do verbo, ele delira´.

Enfim, o verbo é o ser supremo no poema ´Didática de uma invenção´, mostrando-nos, o incrível processo de criação literária do poeta.

O poema ´A arte de infantilizar formigas´ consta no Livro sobre nada, obra editada em 1996, que rendeu a Manoel de Barros o Prêmio Nestlé de Literatura pelo alto grau do jogo de palavras instaurado para criar uma realidade própria:

Depois de ter entrado para rã, para árvore, para pedra
- meu avô começou a dar germínios
Queria ter filhos com uma árvore.
Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir
vender na cidade.
Meu avô ampliava a solidão.
No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do
quintal : Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra
dentro.
Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato.
Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.
Aí a nossa mãe deu entidade pessoal ao dia.
Ela deu ser ao dia,
e Ele envelheceu como um homem envelhece.
Talvez fosse a maneira
Que a mãe encontrou para aumentar
as pessoas daquele lugar
que era lacuna de gente.

É notório no discurso a forte carga emotiva que o ´avô´ possui em relação à natureza, pois são incorporados aos elementos da mãe terra como a rã (animal), a árvore (vegetal) e a pedra (mineral), havendo uma nítida integração com esses seres. Desta forma, o avô passa ´a dar germínios´, mostrando a idéia de fertilidade. Tal idéia sobre fertilidade é expressa através da anunciação de seus extravagantes desejos como notamos nos versos nº 3, 4 e 5.

´Queria ter filhos com uma árvore./Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir/vender na cidade.´

Nota-se que além da união mística do avô com a árvore (´queria ter filhos com uma árvore), é empregado o verbo ´sonhava´ que pode ser visto como uma seqüência de eventos psíquicos ocorridos durante o sono, ou como um desejo e aspiração. Essa é uma forma de mostrar os devaneios que perpassavam a mente do avô, quando contemplava a imensurável natureza presente em sua vida.

Quando o avô menciona que ´sonhava de pegar um casal de lobisomem´, nos dá uma idéia alógica, pois a expressão ´lobisomem´ origina-se do latim lupus homo, homem lobo, gênero masculino. Já o termo casal nos remete a idéia da união entre o macho e a


fêmea. De fato, o eu lírico desconstrói a lenda, a fim de que haja procriação.

Na seqüência, quando é dita a finalidade desta ação, ´para ir/ vender a cidade´, nota-se embutida a noção de comércio que remete a toda e qualquer cidade. Dessa forma, o poema estabelece uma forte oposição entre o primitivo (´lobisomem´) e o não primitivo (´cidade´) que o avô deseja romper.

No verso nº 6, ´Meu avô ampliava a solidão´, o avô surge isoladamente, em liberdade, fato em que explica todos os delírios marcados pelo eu lírico. Dessa forma, o avô apesar de ser um membro da família, apresenta-se distinto de um personagem do cotidiano. O avô parece se isolar da família pelas suas capacidades e qualidades, as quais ele quer estender aos outros, por isso quer ter filhos com uma árvore, vender um casal de lobisomem: afinal, cultivar a inútil poesia.

No que apresenta o verso nº 7, tem-se outra indicação temporal ´no fim da tarde´ que remete a uma rotina, conforme expressa o verbo aparecer, núcleo (´aparecia´), núcleo da oração. É interessante ressaltar o aparecimento de ´nossa mãe´ que, ao contrário de ´meu avô´, apresenta-se antecedida pelo pronome possessivo em primeira pessoa do plural. Daí pode-se inferir que o ´avô´ materializa a liberdade do eu lírico, já a ´mãe´, os limites.

No tocante aos versos nº 8 e 9: ´Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem para dentro´, observa-se um processo de personificação do dia (prosopopéia) que dá vida ao dia, além do pleonasmos vicioso ´entrem para dentro´, típico da linguagem coloquial. Nota-se a expressividade do eu lírico por ser fiel em relação à linguagem da mãe, refletindo grande autenticidade dessa situação cotidiana.

Nos versos seguintes temos: ´Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato / Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.´ Primeiro, quando se diz ´atravessou o olho´ é uma metáfora feita a percepção intelectual do eu lírico (a imaginação poética). E o mato, por sua vez, representa o terreno inculto (a escrita poética). Enfim, notasse no verso nº 11 a ambigüidade no vocábulo ´folha´ , pois tanto pode se referir a uma parte das plantas , como ao papel que serve para à escrita.

O trecho do poema ´Canção do ver´, presente na obra ´Poemas Rupestres´, de Manoel de Barros, relata-nos o forte poder criativo do poeta em gerar uma realidade própria para os fatos mundanos:

1. Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.

Nesse discurso, o eu lírico vive integrado na natureza como se fosse um pássaro. Enxerga como um pássaro, pois para ele as coisas presentes na mãe terra eram iguais, ou seja, viviam em harmonia plena. A arte de criação poética é um recurso utilizado pelo autor para transgredir a esfera da normalidade, ou seja, uma nova realidade é recriada. Enfim, o cerne da poética barrosiana é o cultivo da poesia experimental. Como ilustração, leiamos os versos: ´As palavras eram livres de gramáticas e/Podiam ficar em qualquer posição./Por forma que o menino podia inaugurar./Podia dar as pedras costumes de flor./Podia dar ao canto formato de sol.

Tudo era inominado, pois não havia a austeridade da gramática normativa para nomear os seres como é o caso do substantivo. Notamos, então, a total inversão da ordem natural dos seres, também presente no trecho seguinte:

2. A de muito que na Corruptela onde a gente
Vivia
Não passava ninguém
Nem mascate muleiro
Nem anta batizada
Nem cachorro de bugre.
O dia demorava de uma lesma.
Até uma lacraia ondeante atravessa o dia
Por primeiro do que o sol.
E essa lacraia ainda fazia estação de recreio no circo das crianças
a fim de pular corda.
Lembrava a tartaruga de Creonte
Que quando chegava na outra margem do rio
As águas já tinham até criado cabelo.
Por isso a gente pensava sempre que o dia
de hoje ainda era o ontem.
A gente se acostumou de enxergar antigamentes.

Nos versos nº 3, 4 e 5 temos a figura de repetição ´anáfora´ do advérbio de negação ´nem´, que é relevante para a intensificação dos conteúdos e estruturação do ritmo na poesia.

É notória a nostalgia predominante no ambiente em que o eu lírico vive, pois tudo se reduz ao nada. Há uma metáfora em relação ao tempo que passa vagarosamente em ´O dia demorava de uma lesma´. Ainda menciona as ações de uma lacraia que atravessava o dia, fazendo estações de recreio no circo das crianças, havendo uma relação harmônica desse inseto traiçoeiro com as crianças.

Tamanha era a vagarosidade do dia que o eu lírico fica preso às imagens pertencentes às reminiscências de sua infância. Para mostrar novamente a morbidez do dia e o rico processo criativo do autor, citemos um outro trecho presente no poema Canção do Ver:

3. Pela forma que o dia era parado de poste
Os homens passavam as horas sentados na
Porta da Venda
De Seo Mané Quinhentos Réis
que tinha esse nome porque todas as coisas que vendia
custavam o seu preço e mais quinhentos réis.
Seria qualquer coisa como a Caixa Dois dos Prefeitos.
O mato era atrás da Venda e servia também para a gente desocupar
Nem as emas solteiras que despejavam correndo.
No arruado havia nove ranchos.
Araras cruzavam por cima dos ranchos
conversando em ararês.
Ninguém de nós sabia conversar em ararês.
Os maridos que não ficavam de prosa na porta
da Venda
Iam plantar mandioca
Ou fazer filhos nas patroas
A vida era bem largada.

Observa-se a ociosidade dos homens que só freqüentavam a venda de ´Seu Mané Quinhentos Réis´. Temos presente o desvio ortográfico em ´Seo Mane´, típicos da linguagem coloquial.

É bem claro o comportamento do homem, dos cachorros e das emas no momento de fazerem as necessidades, quando o eu lírico utiliza os verbos ´desocupar´ e ´despejar´ que remetem a um eufemismo para outros verbos que trazem uma conotação mais pejorativa como ´obrar´ ou ´defecar´.

Como ultimo recurso, o autor utiliza o neologismo ´ararês´ que era a língua falada pelas araras que cruzavam por cima dos ranchos.

Por fim, devido à falta de opção, os homens que não se restringiam a freqüentar a venda, ou plantavam mandioca ou faziam filhos nas patroas.

Assim, tem-se como cerne na poética de Barros a completa transposição das palavras, mudando o seu significado próprio, trazendo, pois, a composição de um novo mundo que é habitado por seres presentes da mãe natureza como o pássaro, a rã, a árvore, o cachorro etc. De forma análoga, encontramos a representação de pessoas que servem como elo na desmistificação de seu fazer poético.

http://www.revista.agulha.nom.br/manu.html

VESTIBULAR 2010

As incrições para o Vestibular 2010 da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) começam no dia 28 e podem ser feitas até o dia 24 de setembro. Só poderão fazer as inscrições os alunos que estiverem inscritos no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), que corresponde à primeira fase de avaliação. Serão oferecidas 6.517 vagas em 89 cursos, distribuídos nos câmpus Recife, Agreste e Vitória de Santo Antão.

Como no ano passado, as inscrições só poderão ser feitas através da internet. Automaticamente, o site da Covest vai gerar um boleto bancário, no valor de R$ 70, que poderá ser pago em qualquer agência do Banco do Brasil. Após efetuar o pagamento, o estudante deve confirmar a inscrição através do site. A taxa poderá ser paga até o dia 25 de setembro, um dia após o prazo final das inscrições. Em entrevista coletiva, realizada nesta quinta-feira (20), na sede da Comissão de Vestibular (Covest), a presidente da instituição, Lícia Maia, espera manter o número de inscritos no ano passado - 53 mil - ou até aumentar. "Ao contrário de exames anteriores, o fera poderá optar por mais de uma instituição federal, então poderemos ter mais inscrições", afirmou.

Durante o preenchimento do formulário eletrônico, será permitido fazer o upload de uma foto, que deverá ser anexada à inscrição. Se não for possível enviar o arquivo, o estudante poderá colar a foto no próprio Comunicado de Confirmação de Inscrição (CCI), que será entregue ao fiscal no primeiro dia de prova. A impressão é responsabilidade do fera.

Como anunciado anteriormente, além do novo Enem, que irá substituir a primeira etapa da UFPE, a Federal de Pernambuco terá três novos cursos. O câmpus Recife passa a oferecer sistemas de informação e engenharia de materiais. A unidade de Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata, irá contar com bacharelado em educação física.

ISENÇÃO - As solicitações de isenção da taxa de inscrição já poderão ser feitas a partir da próxima semana, de segunda-feira (24) até quarta-feira (26). Das 15 mil isenções que serão concedidas, 10 mil são de 100% e 5 mil de 50% do valor (R$ 35).

A novidade é que, neste ano, só poderão pedir o benefício os estudantes do 3° ano do ensino médio. Quem já concluiu, mesmo que em escola pública, não terá direito ao benefício. "O sistema público de Pernambuco tem 94 mil alunos que estão concluindo este ano. Queremos dar oportunidade a esse público, que nunca fez o exame", explicou Lícia Maia.

Para solicitar a isenção, também é necessário estar inscrito no Enem, ter feito os três anos do ensino médio em colégio público e estar inscrito na base do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), do Ministério de Desenvolvimento Social. No caso dos alunos que ainda não estão inscritos e que, portanto, não têm o Número de Identificação Social (NIS), será necessário provar que é membro de família com renda mensal per capita de até meio salário mínimo (R$ 232,50) ou que possua renda familiar mensal de até três salários mínimos (R$ 1.395).

O edital de isenção estará disponível no site da Covest a partir desta sexta-feira (21).

PROVAS - A primeira fase do vestibular da UFPE, substituído pelo novo Enem, será nos dias 3 e 4 de outubro, enquanto as provas da segunda fase serão aplicadas nos dias 20 e 21 de dezembro.

Como divulgado anteriormente, não haverá ponto de corte na primeira etapa. No Enem, o fera responderá a 180 questões, além de fazer uma redação. Ao contrário da tradicional prova da primeira fase, neste ano, não há língua estrangeira.

No primeiro dia da segunda fase, os candidatos farão provas de português 1 (duas discursivas), língua estrangeira 1 (oito questões) e uma específica (história ou qímica). No segundo dia, serão respondidas apenas questões de disciplinas específicas, de acordo com o curso escolhido.

A expectativa é que até o dia 4 de dezembro, o Ministério da Educação (MEC) divulgue para as comissões de vestibular as notas objetivas do Enem. As notas das redações saem até o dia 8 de janeiro. Desta forma, o listão da UFPE será divulgado até o dia 31 de janeiro.


CRONOGRAMA DO VESTIBULAR 2010
DATA EVENTO
24/08 a 26/08 Solicitação de isenção da taxa de inscrição
28/08 a 24/09 Período de inscrição
19/09 Publicação da relação dos candidatos beneficiados com a isenção
21/09 a 24/09 Inscrição dos candidatos que obtiveram isenção
25/09 - Último dia para pagamento do boleto referente à taxa de inscrição
- Último dia para pessoas com necessidades especiais pedirem atendimento especial
03/10 a 04/10 Primeira fase - Enem
08/11 Teste de habilidades específicas - solfejo- para os candidatos aos cursos de música (bacharelado e licenciatura)
Até 11/11 Divulgação dos resultados da prova de solfejo
15/11 - Teste de habilidades específicas - instrumento - para todos os candidatos ao curso de música
- Teste de aptidão para os candidatos ao curso de dança
Até 18/11 - Resultado do teste de habilidade em música
- Resultado do teste de aptidão para dança
20 e 21/12 Segunda fase
22/12 Data limite para apresentação de recursos do gabarito das provas objetivas
Até 31/01/2010 Divulgação do listão
Fonte: COVEST/COPSET

terça-feira, 18 de agosto de 2009

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

PONTUAÇÃO - ASSUNTANDO


Sobre OS DOMÍNIOS da pontuação.

Sinais de Pontuação

Sinal
Utilização

Ponto (.) Usa-se no final do período, indicando que o sentido está completo e nas abreviaturas (Dr., Exa., Sr.); marca uma pausa absoluta
Vírgula (,) Marca uma pequena pausa. É usada para separar: o oposto; o vocativo; o atributo; os elementos de um sintagma não ligados pelas conjunções e, ou, nem; as coordenadas assindéticas não ligadas por conjunções; as orações relativas; as orações intercaladas; as orações subordinadas e as adversativas introduzidas por mas, contudo, todavia e porém.
Ponto e vírgula (;) Sinal intermédio entre o ponto e a vírgula que indica que a frase não está finalizada. Usa-se: em frases constituídas por várias orações, algumas das quais já contêm uma ou mais vírgulas; para separar frases subordinadas dependentes de uma subordinante; como substituição da vírgula na separação da oração coordenada adversativa da oração principal.
Dois pontos (:) Marcam uma pausa e anunciam: uma citação; uma fala; uma enumeração; um esclarecimento; uma síntese
Ponto de interrogação (?) Usa-se no final de uma frase interrogativa directa e indica uma pergunta
Ponto de exclamação (!) Usa-se no final de qualquer frase que exprime sentimentos, emoções, dor, ironia e surpresa
Reticências (...) Marcam uma interrupção na frase indicando que o sentido da oração ficou incompleto
Aspas ("...") Usam-se para delimitar citações; para referir títulos de obras; para realçar uma palavra ou expressão
Parênteses (...) Marcam uma observação ou informação acessória intercalada no texto
Parágrafo (§) Constitui cada uma das secções de frases de um escrito; começa por letra maiúscula, um pouco além do ponto em que começam as outras linhas.
Travessão (-) Marca o início e o fim das falas, no diálogo para distinguir cada um dos interlocutores; as orações intercaladas; as sínteses no final de um texto. Substitui os parênteses.

domingo, 16 de agosto de 2009

MULTA DE TRÂNSITO, É BOM SABER..

Quando você receber uma multa por infração leve ou média, se não foi multado pelo mesmo motivo nos últimos 12 meses, não precisa pagar multa.

É só ir ao DETRAN e pedir o formulário para converter a infração em advertência com base no Art. 267 do CTB.
Levar Xerox da carteira de motorista e a notificação da multa.

Em 30 dias você recebe pelo correio a advertência por escrito. Perde os pontos, mas não paga nada.

CÓDIGO NACIONAL DE TRÂNSITO BRASILEIRO

Art. 267. Poderá ser imposta a penalidade de advertência por escrito à infração de natureza leve ou média, passível de ser punida com multa, não sendo reincidente o infrator, na mesma infração, nos últimos doze meses, quando a autoridade, considerando o prontuário do infrator, entender esta providência como mais educativa. § 1º A aplicação da advertência por escrito não elide o acréscimo do valor da multa prevista no § 3º do art. 258, imposta por infração posteriormente cometida.
Art. 258. As infrações punidas com multa classificam-se, de acordo com sua gravidade, em quatro categorias:
§ 3º (VETADO)
§ 2º O disposto neste artigo aplica-se igualmente aos pedestres, podendo a multa ser transformada na participação do infrator em cursos de segurança viária, a critério da autoridade de trânsito.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Avulsos
Resumo e análise da obra
Macunaíma
o herói sem nenhum caráter
de Mário de Andrade
por
Dácio Antônio de Castro e
Frederico Barbosa

Índice
Mário de Andrade - vida e obra

Introdução
O Brasil na década de 20 A Semana de Arte Moderna (1922) Mário de Andrade e o Modernismo

A síntese do romance – rapsódia

Análise da Obra
Macunaíma e a renovação da linguagem literária A rapsódia As fontes O herói sem nenhum caráter Foco narrativo Espaço e tempo Enumerações e desregionalização A Carta pras Icamiabas
Mário de Andrade
Vida e Obra
Mário Raul de Morais Andrade nasceu na rua Aurora, na cidade de São Paulo, em 9 de outubro de 1893. Seu pai, o dr. Carlos Augusto de Andrade, de origem humilde, conseguira uma situação financeira estável através do próprio esforço e muito trabalho. Sua mãe, dona Maria Luísa, com quem Mário morou até o fim da vida, descendia de bandeirantes, mas não era rica. Quando adolescente, era um estudante dispersivo, que tirava notas baixas e só se destacava em Português. Enquanto seus irmãos Carlos, mais velho e Renato, mais novo – pianista de talento, falecido ainda menino - eram elogiados, Mário era considerado a ovelha negra da família. De repente, começou a estudar. Estudava música até nove horas por dia, lia muito e logo começou a ganhar fama de erudito. A família passou a admitir o seu talento, mas achava esquisitas sua preferências literárias. Em 1917, morre seu pai. Mário conclui, neste mesmo ano, o curso de piano no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, publica seu livro de estréia Há uma Gota de Sangue em cada Poema e conhece Anita Malfatti e Oswald de Andrade. Metódico e estudioso, torna-se Catedrático de História da Música, no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, em 1922, e, para sobreviver, ainda dá muitas aulas particulares de piano e escreve artigos de crítica para diversas publicações. Participa, como um dos principais organizadores, da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, em 1922, e publica, neste mesmo ano, Paulicéia Desvairada (poesia), em que radicaliza as experimentações de vanguarda modernistas. Em 1927, publica Clã do Jabuti, em que trabalha poeticamente as tradições populares que pesquisava e o romance Amar, Verbo Intransitivo, em que critica a hipocrisia sexual da alta sociedade paulistana. Em 1928, publica o romance Macunaíma, uma das obras-primas da literatura brasileira, em que reúne inúmeras lendas e mitos indígenas para compor a história do “herói sem nenhum caráter”, que, invertendo os relatos dos cronistas quinhentistas, vem da mata para a cidade de São Paulo. Em 1934, é nomeado diretor do Departamento de Cultura do Município de São Paulo, onde permanece até 1938, quando muda-se para o Rio de Janeiro para ser catedrático de Filosofia e História da Arte e diretor do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal. Não se adapta à mudança, vive deprimido e, “numa noite de porre imenso” bate com o punho na mesa do bar e fala para si mesmo: “Vou-me embora para São Paulo, morar na minha casa”. Volta para São Paulo em 1940, trabalha no Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que ajudara a criar em 36, e viaja por todo o Estado de São Paulo, fazendo pesquisas. Em 1942, publica O Movimento Modernista, famosa conferência, em que faz o balanço e a crítica de sua geração, “assinalando os erros do Modernismo, principalmente o que considera como “abstencionismo” diante dos graves problemas sociais do seu tempo”. Sua saúde, já frágil, piora a partir dessa época. Em 43, inicia a publicação das suas Obras Completas, planejada para sair em dezoito volumes. Em 25 de fevereiro de 1945, aos 51 anos de idade, Mário de Andrade sofre um ataque cardíaco fulminante e morre, deixando inacabado o livro Contos Novos (1946) em que se destacam narrativas de inspiração freudiana, como “Vestida de Preto” e “Frederico Paciência”, e contos de preocupação social, como “O Poço” e “Primeiro de Maio”. Como crítico literário seu legado é imenso. Em A escrava que não é Isaura (1925), por exemplo, reúne ensaios provocativos contra o passadismo. Já nos Aspectos da Literatura Brasileira (1943), aborda, de maneira bem menos passional, os mais importantes escritores da literatura brasileira. Com sua morte precoce o Brasil ficou órfão de um dos seus mais fecundos, múltiplos e íntegros intelectuais que, certa feita, definiu-se como “trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”. Números muito modestos, levando-se em conta sua importância para a cultura brasileira do século XX.

Introdução

O Brasil na década de 20

A sociedade brasileira, no tempo em que surgiu Macunaíma, parecia bastante mudada. Já não tinha aquele ar de fazenda que respiramos durante 4 séculos. Havia muitas fábricas (principalmente em São Paulo), grandes aglomerados urbanos, com populações de quase 1 milhão de habitantes. O comércio e a indústria prosperavam rapidamente, graças ao mercado consumidor formado pelos moradores das cidades e pelos colonos de origem estrangeira. As mulheres fumavam, iam sozinhas ao cinema, exibiam as pernas. Algo impressionava bastante os brasileiros daquele tempo: a velocidade dos meios de comunicação e transporte! Eram carros, bondes, trens, telégrafos, rádios, telefone… Empresas, bancos, bolsas de valores… Desde 1922, o país parecia estar em ebulição: além da Semana de Arte Moderna, foi criado o Partido Comunista e iniciado o movimento tenentista, que, durante toda a década de 20, desafiou o governo federal. O clímax deste movimento foi a Coluna Prestes que percorreu 33 mil quilômetros do interior do Brasil, travando mais de 100 combates, em dois anos e meio (1924-1927). Arthur Bernardes e Washington Luís usaram todos os meios para combatê-la, lançando até o cangaceiro Lampião no seu encalço. A Coluna, porém, não teve força para derrubar o governo central, nem conseguiu rebelar o povo contra o regime. Esgotada, embora invicta, internou-se na Bolívia. No entanto, a imagem de Luís Carlos Prestes, com seus prodígios de técnica militar e de bravura pessoal, constituiu um mito que exerceu sobre os intelectuais de esquerda (entre os quais se incluíam Mário de Andrade, Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade) uma grande fascinação. O tenentismo (com seus levantes ao longo da década) aliado à crise desencadeada pelo estouro da Bolsa de Nova Iorque em 1929, são fatos que se somam para derrubar a República Velha na triunfante Revolução de outubro de 1930.

A Semana de Arte Moderna (1922)

A semana na realidade durou três dias. Mas nunca três dias abalaram tanto o mundo da arte brasileira. Nos dia 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, sob o apadrinhamento do romancista pré-modernista Graça Aranha, os jovens paulistanos empenhados em revolucionar a arte apresentaram, pela primeira vez em conjunto, suas idéias de vanguarda. A Semana, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, foi aberta com a conferência A emoção estética na arte, de Graça Aranha, em que atacava o conservadorismo e o academicismo da arte brasileira. Seguiram-se leituras de poemas de, entre outros, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira, que não pôde comparecer e cujo poema Os Sapos foi lido por Ronald de Carvalho sob um coro de coaxos e apupos. Mário de Andrade leu seu ensaio “A escrava que não é Isaura” nas escadarias do teatro. Obras de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Victor Brecheret e outros artistas plásticos e arquitetos foram expostas. Por fim, apresentaram-se a pianista Guiomar Novaes e o maestro e compositor Heitor Vila-Lobos, que não foi poupado das vaias. Como se vê, a recepção da Semana não foi tranqüila. As ousadias modernistas inquietavam e irritavam o público.
Mário de Andrade e o Modernismo
Foram a Semana de 22 e seus desdobramentos que projetaram Mário de Andrade como figura decisiva do movimento modernista. No processo de implantação da nova mentalidade cultural, Mário destacou-se como teorizador e ativista cultural. Com a determinação própria dos líderes que pretendem injetar uma nova consciência, multiplicou-se em músico, pesquisador de etnografia e folclore, poeta, contista, romancista, crítico de todas as artes, correspondente cultural que troca cartas com artistas novos consagrados, além de ter ocupado vários cargos na burocracia estatal, relacionados com o desenvolvimento da cultura em suas várias manifestações. Era um sujeito muito sério, católico fervoroso, dotado de uma capacidade extraordinária de estudo e ação. Com carisma e afeto, conseguiu colocar a renovação modernista no trilho de um presente e de um futuro culturais marcados por um nacionalismo arejado e lúcido.

A síntese do romance – rapsódia
Capítulo I - Macunaíma
Macunaíma, “herói de nossa gente” nasceu à margem do Uraricoera, em plena floresta amazônica. Descendia da tribo dos Tapanhumas e, desde a primeira infância, revelava-se como um sujeito “preguiçoso”. Ainda menino, busca prazeres amorosos com Sofará, mulher de seu irmão Jiguê, que só lhe havia dado pra comer as tripas de uma anta, caçada por Macunaíma numa armadilha esperta. Nas várias transas (“brincadeiras”) com Sofará, Macunaíma transforma-se num príncipe lindo, iniciando um processo constante de metamorfoses que irão ocorrer ao longo da narrativa: índio negro, vira branco, inseto, peixe e até mesmo um pato, dependendo das circunstâncias.
Capítulo II - Maioridade
De tanto aprontar, foi abandonado pela mãe no meio do mato. Tremelicando, com as perninhas em arco, Macunaíma botou o pé na estrada até que topou com o Curupira e perguntou-lhe como faria para voltar pra casa. Maliciosamente, o Curupira ensina-lhe um caminho errado que Macunaíma, por preguiça, não seguiu. Escapando do monstro, o herói topou com uma voz que cantava uma toada lenta: era a cotia, que depois de ouvir o piá contar como enganara o Curupira, jogou-lhe em cima calda envenenada de mandioca. Isto fez Macunaíma crescer, atingindo o “tamanho dum homem taludo”.
Capítulo III – Ci, Mãe do Mato Encontra Ci, a Mãe do Mato e inventa com ela lindas e novas maneiras de gozos de amor. O resultado desse idílio é o nascimento de um curumi, que morreu prematuramente depois de mamar no único peito de Ci, envenenado pela Cobra Preta. Enterrado o filho, Ci também resolveu deixar este mundo. Deu ao herói sua muiraquitã famosa e subiu pro céu por um cipó, transformando-se numa estrela.
Capitulo IV – Boiúna Luna Tomado de tristeza, Macunaíma despediu-se das Icamiabas e partiu rumo às matas misteriosas. No caminho, encontra Capei, monstro fantástico que abre a goela e solta uma nuvem de marimbondos. Nas lutas contra o monstro, Macunaíma perde seu talismã e fica sabendo, através de um uirapuru, que a tartaruga que engolira sua pedra tinha sido apanhada por um mariscador. Este vendera a muiraquitã a um rico fazendeiro chamado Venceslau Pietro Pietra, proprietário de uma mansão na rua Maranhão, em São Paulo. Macunaíma resolve, então, vir para a capital paulista recuperar sua muiraquitã.
Capítulo V - Piaimã O herói junta seus irmãos e desce o Araguaia, com sua esquadra de igarités cheias de cacau. Em São Paulo, fica sabendo que Venceslau Pietro Pietra era o gigante Piaimã, comedor de gente, companheiro de uma caapora velha chamada Ceiuci, também antropófaga e muito gulosa. Esse capítulo apresenta uma das passagens mais saborosas do romance: a chegada de Macunaíma e seus irmãos à cidade de São Paulo. Nesse momento, Mário de Andrade inverte os relatos quinhentistas da Literatura Informativa. Aqui é o índio que se depara com a dita “civilização” e procura assimilá-la, digerindo-a com suas próprias enzimas culturais.
Capítulo VI – A francesa e o gigante Depois de uma tentativa de aproximação frustrada, Macunaíma resolve se vestir de francesa para conquistar Venceslau Pietro Pietra e reconquistar sua muiraquitã. O regatão não emprestou a pedra nem quis vendê-la. Mas deixou claro que poderia dá-la se a francesa resolvesse “brincar” com ele… Muito inquieto, Macunaíma foge, percorrendo, em louca correria, grande parte do território brasileiro.
Capítulo VII - Macumba Como não tivesse força suficiente pra matar o gigante, Macunaíma vem para o Rio de Janeiro procurar o terreiro de macumba da tia Ciata. Pediu à macumbeira vários castigos pro gigante Piaimã que, além de receber a chifrada de um touro selvagem, é ferroado por quarenta mil formigas-de-fogo.
Capítulo VIII – Vei, a Sol É também no Rio de Janeiro que Macunaíma reencontra a Vei, a deusa-sol que pretendia casar uma de suas três filhas com o herói. Embora tivesse prometido, Macunaíma não cumpriu a palavra empenhada: logo que anoiteceu, convidou uma portuguesa e brincou com ela na jangada. Depois foram descansar num banco da avenida Beira-mar, no Flamengo, quando surgiu Mianiquê-Teibê, monstro de garras enormes com olhos no lugar dos peitos e duas bocarras nos pés, de dentes aguçados. Macunaíma saiu correndo pela praia; o monstro comeu a portuga e desapareceu.
Capítulo IX – Carta pras Icamiabas O herói retorna a São Paulo e, saudoso, resolve escrever uma “carta pras icamiabas”, relatando como era sua vida em São Paulo. Faz, num satírico estilo beletrista, uma descrição da agitada vida paulistana, com seus arranha-céus, ruas “habilmente estreitas” cheias de gente, cinemas, casas de moda, ônibus, estátuas e jardim. Nesta pernóstica missiva, o corrupto Imperador faz questão de detalhar para as amazonas a prática constante de amores pecaminosos, tanto que ele até pensa em tirar proveito da exploração do lenocínio. Critica o capitalismo selvagem dos paulistas locomotivas e dos italianos arrivistas, destacando, horrorizado, ao final, uma curiosidade original deste povo: “falam numa língua e escrevem noutra”. Depois de abençoar as suas súditas, termina a carta, com a maior desfaçatez, pedindo mais uma “gaita” pras suas fiéis icamiabas.
Capítulo X – Pauí-pódole A surra que Venceslau Pietro Pietra recebeu de Exu foi tão violenta que ele ficou meses numa rede, travado pelos suplícios a que foi submetido. Sem poder readquirir a muiraquitã, Macunaíma ocupou-se então do complicado estudo das duas línguas da terra, “o brasileiro falado e o português escrito”. Interrompe um mulato pedante que fazia um verborrágico discurso sobre o Cruzeiro do Sul, falando que aquelas quatro estrelas que brilham no vasto campo do céu são, na verdade, o Pai do Mutum, figura zoocosmológica que teve seu corpo de ave metamorfoseado numa constelação.
Capítulo XI – A velha Ceiuci Depois de ter passado a noite brincando com a patroa da pensão, Macunaíma falou pros seus irmãos Maanape e Jiguê que tinha achado “rasto fresco de tapir”, em pleno asfalto paulistano, junto à Bolsa de Mercadorias. Induziu seus irmãos a caçarem o animal e estes quase acabam sendo linchados pela multidão que se aglomerou pra assistir à caçada. Um estudante subiu na capota de um automóvel e discursou contra Maanape e Jiguê. Foi interrompido por Macunaíma que, tomado por um efêmero acesso de fraternidade, resolveu defender os irmãos entrando no meio da multidão e distribuindo rasteiras e cabeçadas até ser preso por um “grilo”, soldado da antiga guarda-civil de São Paulo. No meio da confusão, o herói conseguiu fugir e foi ver como passava o gigante Venceslau Pietro Pietra, ainda “convalescendo da sova apanhada na macumba”. Faz uma aposta com o curumi Chuvisco pra ver quem conseguia assustar o gigante e sua família. Perde a aposta e resolve fazer uma pescaria. Como não tivesse anzol, o herói se transforma numa “piranha feroz” pra cortar a linha de um inglês que pescava a seu lado. Acontece que a velha feiticeira Ceiuci, mulher do gigante, também costumava pescar no igarapé Tietê e prende o herói. Ao ser pescado pela tarrafa da feiticeira, Macunaíma vira um pato que devia ser logo comido. Além de brincar com a filha mais moça de Ceiuci, ludibria-a e foge, montado “num cavalo castanho-pedrez que pra carreira Deus o fez”. É uma fuga espetacularmente surrealista: num momento está em Manaus e noutro em Mendoza, na Argentina.
Capítulo XII – Tequeteque, chupinzão e a injustiça dos homens Desesperado porque ainda não conseguira reaver a muiraquitã, Macunaíma se disfarça de pianista e tenta, junto ao governo, uma bolsa de estudos na Europa, para onde Venceslau Pietro Pietra havia viajado. Não conseguindo a bolsa, sai a viajar com os manos pelo Brasil pra ver se acha “alguma panela com dinheiro enterrado”. Nestas andanças, encontra um macaco comendo coquinho baguaçu. Como estava com fome, o herói pergunta ao macaco o que estava comendo e ouve a seguinte resposta cínica: “-- Estou quebrando os meus toaliquiçus pra comer.” Macunaíma resolveu imitá-lo, agarrou um “paralelepípedo e juque! nos toaliquiçus. Caiu morto.” Só conseguiu ressuscitar graças à feitiçaria de Maanape, que colocou no lugar do órgão destruído dois cocos-da-baía. Depois “assoprou fumaça de cachimbo no defunto-herói” e este reanimou-se, tomando guaraná e uma dose de pinga.
Capítulo XIII – A piolhenta de Jiguê Jiguê resolveu se amulherar com Suzi, cunhatã muito velhaca que passava todo o tempo namorando Macunaíma. Jiguê descobre, fica furioso, dá uma baita surra no herói e expulsa Suzi com uma porretada. Levada por seus piolhos, Suzi vai “pro céu virada na estrela que pula”.
Capítulo XIV - Muiraquitã Maanape comunica ao herói a volta de Venceslau Pietro Pietra. Macunaíma enche-se de coragem e decide matar o gigante. Come cobra e, com muita esperteza, coloca Piaimã balançando num cipó de japecanga, embala-o com força e o gigante acaba caindo dentro de um buraco onde Ceiuci, a velha caapora, preparava uma imensa macarronada. O gigante cai na água fervente e o cheiro de seu couro cozido, além de matar todos os ticoticos da cidade, provoca o desmaio de Macunaíma. Quando se recupera, o herói apanha a muiraquitã e volta pra pensão.
Capítulo XV – A pacuera de Oibê Morto Piaimã e reconquistada sua muiraquitã, Macunaíma, Maanape e Jiguê são novamente índios e resolvem voltar para o distante Uraricoera. O herói levava no peito “uma satisfação imensa”, mas não deixa de ter saudade de São Paulo. Tanto que levava consigo todas as coisas que mais o haviam entusiasmado na “civilização paulista”: um casal de legornes, um revólver Smith-Wesson e um relógio Patek. Um bando de aves forma uma grande tenda de asas coloridas que protegem o Imperador do Mato-Virgem. Nesta viagem de volta feliz, o herói teve novas aventuras amorosas, lembrando-se com saudade da vida dissoluta que levara em São Paulo: encontra-se com Iriqui (antiga companheira de Jiguê) e com uma linda princesa que tinha sido transformada num pé de carambola. Com sua muiraquitã, o herói faz uma mandinga e o caramboleiro vira “uma princesa muito chique”, com quem tem vontade de brincar, mas não pode, pois são perseguidos pelo Minhocão Oibê. Graças a uma nova mandinga, o herói transforma Oibê num cachorro-do-mato, de rabo cabeludo e goela escancarada. Como Macunaíma agora só queria brincar com a princesa, Iriqui fica tristíssima e sobe “pro céu, chorando luz, virada numa estrela”.
Capítulo XVI - Uraricoera Finalmente, chega ao Uraricoera natal e, ao passar por um lugar chamado Pai da Tocandeira, reconhece suas raízes e chora: a maloca da tribo era agora uma tapera arruinada. Uma sombra leprosa devora seus irmãos e a princesa, e o herói fica “defunto sem choro, no abandono completo”, empaludado e sem forças para construir uma oca. Ata sua rede em dois cajueiros no alto da barranca junto do rio e assim passa seus dias “caceteado e comendo cajus”. Todas as aves também o abandonam, ficando somente um papagaio pra quem o herói conta todos os casos que lhe tinham acontecido. Graças a este papagaio é que se salvou do esquecimento a história do herói, parido por uma índia tapanhumas.
Capítulo XVII – Ursa maior Num dia de janeiro de muito calor, o herói acorda sentindo umas “cosquinhas”, que até lhe parecem feitas “por mãos de moça”. Era a última vingança de Vei, a Sol, tramando para liquidá-lo de vez. Macunaíma lembra-se de que há muito não brincava e vai tomar banho num lagoão, pensando que a água fria viria amortecer seus desejos de amor. O herói, encaminhando-se para a água, enxerga lá no fundo “uma cunhã lindíssima”, ora branca de cabelos louros, ora morena de cabelos negros, que começa a tentá-lo com danças e meneios. Macunaíma hesita, temeroso, mas acaba mergulhando na lagoa, desvairado pelos encantos irresistíveis da uiara. Esta o mutila, devorando-lhe uma perna, os brincos, os cocos-da-baía, as orelhas, os dedões, o nariz e os beiços. Desaparece também com sua muiraquitã: o herói pula e dá “um grito que encurtou o tamanho do dia”. Tem ainda força para lançar plantas venenosas no lagoão, matando peixes, piranhas e botos que lá estavam. No afã de recuperar seus tesouros, Macunaíma abre-lhe as barrigas e o que encontra reprega no corpo mutilado, com sapé e cola de peixe. Não consegue, todavia, reconquistar a perna nem a muiraquitã, “engolidas pelo monstro Ururau”. E assim tudo se acaba. Macunaíma, mutilado, vai bater na casa do Pai Mutum, que, com dó dele, faz uma feitiçaria e transforma-o na constelação da Ursa Maior. “Ia pro céu viver com a marvada. Ia ser o brilho bonito mas inútil porém de mais uma constelação.” Neste balanço que Macunaíma faz de sua existência, ele dialoga com sua consciência e deixa sua mensagem para a posteridade: “Não vim no mundo para ser pedra”. A pedra simboliza disciplina rígida, método, lapidação de caráter, traços que Macunaíma, a própria encarnação da esperteza e da improvisação, nunca quis assumir.
Epílogo “Acabou-se a história e morreu a vitória”. Os filhos da tribo dos Tapanhumas “se acabaram de um em um”. “Uma feita um homem foi lá” e, rompendo o “silêncio enorme” que “dormia à beira-rio do Uraricoera”, ouve-se: -- “Curr-pac, papac! curr-pac, papac!…” Era o papagaio ao qual Macunaíma havia contado toda a sua história. “Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito!” “Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toques rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói da nossa gente”. Era o próprio Mário de Andrade. “Tem mais não”.

Análise da Obra
Macunaíma e a renovação da linguagem literária
Publicado em 1928, numa tiragem de apenas oitocentos exemplares (Mário de Andrade não conseguira editor), Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, é uma das obras pilares da cultura brasileira. Numa narrativa fantástica e picaresca, ou, melhor dizendo, “malandra”, herdeira direta das Memórias de um Sargento de Milícias (1852) de Manuel Antônio de Almeida, Mário de Andrade reelabora literariamente temas de mitologia indígena e visões folclóricas da Amazônia e do resto do país, fundando uma nova linguagem literária, saborosamente brasileira. Macunaíma - bem como Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933), de Oswald de Andrade - foram obras revolucionárias na medida em que desafiaram o sistema cultural vigente, propondo, através de uma nova organização da linguagem literária, o lançamento de outras informações culturais, diferentes em tudo das posições mantidas por uma sociedade dominada até então pelo reacionarismo e o atraso cultural generalizado. Nacionalista crítico, sem xenofobia, Macunaíma é a obra que melhor concretiza as propostas do movimento da Antropofagia (1928), criado por Oswald de Andrade, que buscava uma relação de igualdade real da cultura brasileira com as demais. Não a rejeição pura e simples do que vem de fora, mas consumir aquilo que há de bom na arte estrangeira. Não evitá-la, mas, como um antropófago, comer o que mereça ser comido. O tom bem humorado e a inventividade narrativa e lingüística fazem de Macunaíma uma das obras modernistas brasileiras mais afinadas com a literatura de vanguarda no mundo, na sua época. Nesse romance encontram-se dadaísmo, futurismo, expressionismo e surrealismo aplicados a um vasto conhecimento das raízes da cultura brasileira.
A rapsódia Mário de Andrade nos conta que escreveu Macunaíma em seis dias, deitado, bem à maneira de seu herói, em uma rede na “Chácara de Sapucaia”, em Araraquara, SP. Diz ainda: “Gastei muito pouca invenção neste poema fácil de escrever (…). Este livro afinal não passa duma antologia do folclore brasileiro.” A obra, composta em apenas seis dias, é fruto de anos de pesquisa das lendas e mitos indígenas e folclóricos que o autor reúne utilizando a linguagem popular e oral de várias regiões do Brasil. Trata-se, por isso mesmo, de uma rapsódia. Assim os gregos designavam obras como a Ilíada ou a Odisséia de Homero, que reúnem séculos de narrativas poéticas orais, resumindo as tradições folclóricas de todo um povo. Para o musicólogo Mário de Andrade, o termo certamente remete às fantasias instrumentais que utilizam temas e processos de composição improvisada, tirados de cantos tradicionais ou populares, como as rapsódias húngaras de Liszt. Segundo Oswald de Andrade, “Mário escreveu nossa Odisséia e criou duma tacapada o herói cíclico e por cinqüenta anos o idioma poético nacional”. É importante notar que, além de relatar inúmeros mitos recolhidos e diversas fontes populares, Mário de Andrade também inventa, de maneira irônica, vários mitos da modernidade. Apresenta, entre outros, os mitos da criação do futebol, do truco, do gesto da “banana” ou do termo “Vá tomar banho!” Há, em Macunaíma, portanto, além da imensa pesquisa, muita invenção.
As fontes Mário de Andrade nunca escondeu que tomou como fonte principal para a redação de Macunaíma a obra Vom Roroima zum Orinoco (Do Roraima ao Orenoco) de Theodor Koch-Grünberg, publicada, em cinco volumes, entre 1916 e 1924. Graças ao monumental trabalho de Manuel Cavalcanti Proença, Roteiro de Macunaíma, podemos acompanhar como o escritor paulista foi reelaborando as narrativas colhidas na obra do alemão, mesclando-a a outras fontes, como livros de Capistrano de Abreu, Couto Magalhães, Pereira da Costa ou mesmo relatos orais, como o que o grande compositor Pixinguinha lhe fez de uma cerimônia de macumba, para ir tecendo sua rapsódia. Nas lendas de heróis taulipang e arecuná, apresentadas por Koch-Grünberg, Mário de Andrade encontrou o herói Macunaíma, que, segundo o estudioso alemão, “ainda era menino, porém mais safado que todos os outros irmãos.” Nas palavras do poeta-crítico Haroldo de Campos: “O próprio Koch-Grünberg, em sua “Introdução” ao volume, ressalta a ambigüidade do herói, dotado de poderes de criação e transformação, nutridor por excelência, ao mesmo tempo, todavia, malicioso e pérfido. Segundo o etnógrafo alemão, o nome do supremo herói tribal parece conter como parte essencial a palavra MAKU, que significa “mau” e o sufixo IMA, “grande”. Assim, Macunaíma significaria “O Grande Mau”, nome – observa Grünberg – “que calha perfeitamente com o caráter intrigante e funesto do herói”. Por outro lado, os poderes criativos de Macunaíma levaram os missionários ingleses em suas traduções da Bíblia para a língua indígena a denominar o Deus cristão pelo nome do contraditório herói tribal, decisão que Koch-Grünberg comenta criticamente”.
O herói sem nenhum caráter Foi, portanto, na obra do etnólogo alemão que Mário de Andrade, paradoxal e muito antropofagicamente, encontrou a essência do brasileiro. O próprio autor de Macunaíma, em prefácio que nunca chegou a publicar com o livro, nos conta como ocorreu a descoberta: “O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros. Ora depois de pelejar muito verifiquei uma coisa que me parece certa: o brasileiro não tem caráter. Pode ser que alguém já tenha falado isso antes de mim porém a minha conclusão é uma novidade para mim porque tirada da minha experiência pessoal. E com a palavra caráter não determino apenas uma realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura, tanto no bem como no mal. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional. Os franceses têm caráter e assim os jorubas e os mexicanos. Seja porque civilização própria, perigo iminente, ou consciência de séculos tenham auxiliado, o certo é que esses uns têm caráter. Brasileiro não. Está que nem o rapaz de vinte anos: a gente mais ou menos pode perceber tendências gerais, mas ainda não é tempo de afirmar coisa nenhuma. […] Pois quando matutava nessas coisas topei com Macunaíma no alemão de Koch-Grünberg. E Macunaíma é um herói surpreendentemente sem caráter. (Gozei)” As metamorfoses pelas quais passa a personagem, de sabor surrealista, podem muito bem ser associadas à sua “falta de caráter”, assim como o fascínio que revela pela “língua de Camões”, na Carta pras Icamiabas.
Foco Narrativo Embora predomine o foco da 3a pessoa, Mário de Andrade inova utilizando a técnica cinematográfica de cortes bruscos no discurso do narrador, interrompendo-o para dar vez à fala dos personagens, principalmente Macunaíma. Esta técnica imprime velocidade, simultaneidade e continuidade à narrativa. Exemplo: “Lá chegado ajuntou os vizinhos, criados a patroa cunhãs datilógrafos estudantes empregados-públicos, muitos empregados-públicos! Todos esses vizinhos e contou pra eles que tinha ido caçar na feira do Arouche e matara dois… -- …mateiros, não eram viados mateiros, não, dois viados catingueiros que comi com os manos. Até vinha trazendo um naco pra vocês mas porém escorreguei na esquina, caí derrubei o embrulho e o cachorro comeu tudo.”
(Cap. XI – A Velha Ceiuci)

Espaço e tempo
As estripulias sucessivas de Macunaíma são vividas num espaço mágico, próprio da atmosfera fantástica e maravilhosa em que se desenvolve a narrativa. Em seu Roteiro de Macunaíma, mestre Cavalcanti Proença afirma que Macunaíma se aproxima da epopéia medieval, pois “tem de comum com aqueles heróis a sobre-humanidade e o maravilhoso. Está fora do espaço e do tempo. Por esse motivo pode realizar aquelas fugas espetaculares e assombrosas em que, da capital de São Paulo foge para a Ponta do Calabouço, no Rio, e logo já está em Guarajá-Mirim, nas fronteiras de Mato Grosso e Amazonas para, em seguida, chupar manga-jasmim em Itamaracá de Pernambuco, tomar leite de vaca zebu em Barbacena, Minas Gerais, decifrar litóglifos na Serra do Espírito Santo e finalmente se esconder no oco de um formigueiro, na Ilha do Bananal, em Goiás”. Macunaíma é um personagem outsider, enquanto marginal, anti-herói, fora-da-lei, na medida em que se contrapõe a uma sociedade moderna, organizada em um sistema racional, frio e tecnológico. Assim, o tempo é totalmente subvertido na narrativa. O herói do presente entra em contato com figuras do passado, estabelecendo-se um curioso “diálogo com os mortos”: Macunaíma fala com João Ramalho (séc. XVI), com os holandeses (séc. XVII), com Hércules Florence (séc. XIX) e com Delmiro Gouveia (pioneiro da usina hidrelétrica de Paulo Afonso e industrial nordestino que criou a primeira fábrica nacional de linhas de costura).
Enumerações e Desregionalização Chama a atenção do leitor atento, em Macunaíma, a abundância de enumerações. Já na primeira página do romance encontramos a enumeração das danças tribais: “freqüentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo.” Tais listas colocam em evidência o trabalho de pesquisa de Mário de Andrade, que nelas freqüentemente mistura elementos de diversas regiões do país, ao buscar desregionalizar sua obra, procurando “conceber literariamente o Brasil como entidade homogênea – um conceito étnico nacional e geográfico”. A grande estudiosa da obra de Mário, Telê Porto Ancona Lopez, resume bem o problema: “Mário de Andrade realizava em suas leituras, pesquisa de palavras, termos e expressões características dos diversos recantos do Brasil. Grifava e recolhia. Depois os empregava, nos conjuntos os mais heterogêneos, procurando anular as especificações do regional, e dar uma visão geral de Brasil (…). É pois, graças à coleta de palavras que Mário de Andrade desenvolve, que Macunaíma pode apresentar tão freqüentes enumerações de aves, peixes, insetos ou frutas. Essas enumerações, além de válidas para a quebra do regionalismo, contribuem para a criação de ritmo de embolada, alternando sílabas longas e breves, no trecho em que se inserem. Ritmo procurado, aliás, porque o autor não usa vírgulas.” É importante ressaltar que tais listagens não devem afastar o leitor, que muitas vezes se assusta com tantos nomes “estranhos”. Eles precedem sempre uma definição generalizadora como “todas essas danças religiosas da tribo”. Assim, o leitor não deve se apavorar com a nomenclatura desconhecida e pode deixar a leitura fluir, sem necessariamente recorrer ao dicionário para verificar todos os termos – mesmo porque não vai encontrar a maioria deles.
A Carta pras Icamiabas
Precisamente no meio da narrativa, no Capítulo IX da obra, encontramos um “Intermezzo”, como o chamava o autor. Trata-se da “Carta pras Icamiabas”, sátira feroz ao beletrismo parnasiano da época. Macunaíma escreve a suas súditas para descrever-lhes a cidade de “São Paulo construída sobre sete colinas, à feição tradicional de Roma, a cidade cesárea, “capita” da Latinidade de que provimos". Mário de Andrade inverte, aqui, portanto, os relatos dos cronistas quinhentistas, como Pero Vaz de Caminha, Gabriel Soares de Sousa ou Pero de Magalhães Gandavo. Agora é o índio que descreve a terra desconhecida para seus pares distantes. Sem caráter, Macunaíma o faz tomando emprestada a linguagem rebuscada de um Rui Barbosa ou de um Coelho Neto. A paródia torna-se hilariante devido aos erros grosseiros cometidos pelo falso erudito , que escreve asneiras como “testículos da Bíblia” por “versículos”ou “ciência fescenina” por “feminina”. Com seu estilo pomposo, Macunaíma enuncia, na Carta pras Icamiabas, o slogan que irá adotar para definir os problemas do Brasil: “Tudo vai num descalabro sem comedimento, estamos corroídos pelo morbo e pelos miriápodes! Em breve seremos novamente uma colônia da Inglaterra ou da América do Norte!... Por isso e para eterna lembrança destes paulistas, que são a única gente útil do país, e por isso chamados de Locomotivas, nos demos ao trabalho de metrificarmos um dístico, em que se encerram os segredos de tanta desgraça:
"POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO."
Este dístico é que houvemos por bem escrevermos no livro de Visitantes Ilustres do Instituto Butantã, quando foi da nossa visita a este estabelecimento famoso na Europa." O slogan recupera conhecido poema de Gregório de Matos (1636-1695), em que o poeta satírico baiano enumera as vilezas do país, terminando cada estrofe com o irônico refrão: “Milagres do Brasil são.” Remete, também, à frase do cronista Saint-Hilaire: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”.

Dácio Antônio de Castro é Supervisor do Departamento de Português do Sistema Anglo de Ensino

http://www.angelfire.com/mn/macunaima/

Vidas Secas
(Graciliano Ramos )
A literatura da época
Após a revolução artística, fruto das novas tendências modernistas, no período de 1922 a 1930, surge uma Literatura Brasileira de caráter social e de um realismo regionalista. Essa nova tendência brasileira surgiu depois do famoso Congresso Regionalista de Recife, em 1926, organizado por Gilberto Freire, José Lins do Rego e José Américo de Almeida. Esse congresso tinha como proposta básica organizar uma literatura comprometida com a problemática nordestina: a seca, as instituições arcaicas, a corrupção, o coronelismo, o latifúndio, a exploração de mão-de-obra, o misticismo fanático e os contrastes sociais.
Nessa literatura, chamada de Prosa Regionalista de 1930, devemos incluir José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos e Érico Veríssimo, este último com a retratação do Rio Grande do Sul. Estudaremos, a seguir, o mais importante dos autores desta época, Graciliano Ramos.
Vida
Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de outubro de 1892, na cidade de Quebrângulo, Alagoas, filho de Sebastião Ramos de Oliveira e de Maria Amélia Ferro Ramos. Dois anos depois, a família muda-se para Buíque, Pernambuco, e logo depois volta para Alagoas, morando em Viçosa e Palmeira dos Índios ate 1914. Graciliano estuda, então, e trabalha na loja do pai comerciante.
Em 1914, vai para o Rio de Janeiro, onde mora durante um ano e trabalha como jornalista. No ano seguinte, volta para Palmeira dos Índios e se casa com Maria Augusta Barros, que morre cinco anos depois. Graciliano já, nessa época, escreve para jornais e trabalha com comércio.
Seu segundo casamento, com Heloísa Medeiros, ocorre em 1928, no mesmo ano em que e eleito prefeito de Palmeira dos Índios, cidade que seria palco de seu primeiro romance Caetés.
Em 1930, renuncia à prefeitura e vai para Maceió, onde e nomeado diretor da Imprensa Oficial, mas demite-se no ano seguinte, voltando em seguida para Palmeiras dos Índios, onde funda uma escola e escreve o romance São Bernardo.
Em 1933, é nomeado diretor da Instrução Pública de Alagoas e volta a Maceió. Sua carreira e interrompida em 1936, quando é demitido por motivos políticos. Nesse mesmo ano, publica o romance Angústia e acaba sendo preso e enviado ao Rio de Janeiro. Dessa fase em que passa preso resultaria, mais tarde, seu livro Memórias do Cárcere.
Ao sair da prisão, em 1937, passa a morar no Rio de Janeiro, onde escreve para jornais. No ano seguinte, publica a obra Vidas Secas, escrita num quarto de pensão. Em 1939, e nomeado Inspetor Federal do Ensino.
Somente em 1945, Graciliano entra para o Partido Comunista Brasileiro e, sete anos depois, faz uma viagem a Tchecoslováquia e à União Soviética.
Graciliano Ramos morre em 20 de março de 1953 sem nunca ter retratado uma paisagem do Rio de Janeiro. Conta-se que certa vez andava com um de seus filhos, a pé, pela cidade. Chegaram a Laranjeiras, onde moravam. O filho parou de repente e exclamou: "Como isso aqui e bonito! ". Graciliano ficou surpreso e perguntou se ele achava aquela cidade tão bonita assim. Para Graciliano, Alagoas era seu único universo.
Obras
Romances
Caetés (1933)
São Bernardo (1934)
Angústia (1936)
Vidas Secas (1938)
Contos
Insônia (1947)
Alexandre e Outros Heróis (1962)
Memórias
Infância (1945)
Memórias do Cárcere (1953)
Crônicas
Linhas Tortas (1962)
Viventes das Alagoas (1962)
Viagens
Viagem (1954)
Comentários críticos
Graciliano Ramos foi um escritor extremamente cuidadoso, quanto a forma de seus livros. Reescrevia seus livros sem cessar, procurando retirar deles tudo aquilo que considerasse excesso. De estilo enxuto, então, Graciliano sempre foi considerado como exemplo de elegância e de elaboração.
É comum em suas obras o privilégio do substantivo em relação ao adjetivo. Por isso, alguns críticos gostam de afirmar que Graciliano deve ter se divertido muito quando, no romance Caetés, a personagem recebe uma carta repleta de adjetivos, denunciando o amor adúltero de sua esposa, Luísa.
Sua obra, apesar de centrar-se em determinada região, transcende o pitoresco e o descritivo dos regionalistas típicos da geração de 1930. Graciliano analisa profundamente a relação do homem com o meio, explorando também o lado psicológico e o lingüístico dessa relação.
Independente das limitações regionais, Graciliano faz uma análise profunda da condição humana. Desse modo torna-se universal.
Resumo da obra Vidas Secas
“Será um romance? É antes uma série de quadros, de gravuras em madeira, talhadas com precisão e firmeza.” (Lúcia Miguel-Pereira)
Chamar este romance de “série de quadros, de gravuras em madeira, talhada com precisão e firmeza” é aludir a um de seus traços estilísticos fundamentais: o caráter autônomo e completo de seus capítulos.
Estes podem ser lidos como peças independentes, e como tal foram publicados em jornais, mas reúnem-se com uma organicidade exemplar. Os capítulos de Vidas Secas mantêm uma estrutura descontínua, não-linear, como que reafirmando o isolamento, a instabilidade da família de retirantes: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia.
Formado por treze capítulos que se justapõem sem nexos lógicos, o enredo de Vidas Secas organiza-se principal-mente pela proximidade entre o primeiro Mudança – a chegada da família de retirantes a uma velha fazenda abandonada e arruinada – e, o último, Fuga – a saída da família, que, diante de um novo período de seca, foge para o Sul.
Do capítulo 2 ao 12, a família vive como agregada na fazenda, para cujo proprietário Fabiano trabalha. Assim, passa uma fase de descanso, em relação ao seu nomadismo, provocado pela seca.
No entanto, além da tortura gerada pela lembrança do passado e pelo medo do futuro, o romance enfoca outras faces da opressão que se exerce sobre os membros da família – seja entre eles e os outros homens moradores da cidade, seja apenas consigo.
No capítulo, Cadeia, por exemplo, Fabiano vai à cidade, bebe e joga com o soldado amarelo; quando resolve partir, este o provoca e o leva à cadeia, onde é preso e surrado. Um ano depois, Fabiano o re-encontra, agora em seu território, a caatinga. Embora deseje vingança, acaba se curvando e ensinando o caminho ao sol-dado amarelo (cap. 11).
No episódio Contas (cap. 10), Fabiano é lesado financeiramente pelo patrão. Embora as contas do patrão não coincidam com as da Sinhá Vitória, que as confere, Fabiano não se defende; ao contrário, humilha-se e pede desculpas.
Outro exemplo de opressão e de falta de comunicação entre os seres da família animalizados pela miséria em que vivem, encontra-se no capítulo 6, em que o menino mais velho ouve a palavra inferno, acha-a bonita e procura aprender o seu significado com a mãe, que o repele brutalmente. Já no capítulo 7, Inverno, há uma cena em que a família se reúne numa noite de inverno, e Fabiano tenta contar histórias incompreensíveis enquanto os meninos passam frio.
Enfim, a questão central do romance não está nos acontecimentos, mas nas criaturas que o povoam, nas gravuras de madeira.
Com a análise psicológica do universo mental das personagens, que expõem por meio de discurso indireto livre, o narrador nos vai decifrando sua humanidade embotada, confundida com a paisagem áspera do sertão. Este romance transcende o regionalismo e seu contexto específico – a seca do Nordeste, a opressão dos pobres, a condição animalesca em que vivem - esculpi o ser humano universal.
Opiniões sobre Vidas Secas
“O narrador não quer identificar-se ao personagem, e por isso há na sua voz uma certa objetividade de relator. Mas quer fazer as vezes do personagem, de modo que, sem perder a própria identidade, sugere a dele. [...] É como se o narrador fosse, não um intérprete mimético, mas alguém que institui a humanidade de seres que a sociedade põe à margem, empurrando-os para as fronteiras da animalidade. Aqui, a animalidade reage e penetra pelo universo reservado, em geral, ao adulto civilizado” (Antônio Cândido).
Na opinião de Antônio Cândido sobre o enredo de Vidas Secas: “Este encontro do fim com o começo [...] forma um anel de ferro, em cujo círculo sem saída se fecha a vida esmagada da pobre família de retirantes-agregados-retirantes, mostrando que a poderosa visão social de Graciliano Ramos neste livro não depende [...] do fato de ele ter feito romance regionaliza ou romance proletário. Mas do fato de ter sabido criar em todos os níveis, desde o pormenor do discurso até o desenho geral da composição, os modos literários de mostrar a visão dramática de um mundo opressivo”. (Antônio Cândido)
Resumo por capítulo
1. Mudança
Começando o livro, o narrador coloca diante do leitor o primeiro quadro:
a) uma tomada à distância: a família no ambiente da seca.
b) a caracterização de cada membro da família pelas suas atitudes.
2. Fabiano
O narrador mostra a desintegração progressiva de Fabiano:
a) Fabiano e a vida
b) Fabiano e a seca
c) Fabiano, a família e a seca.
3. Cadeia
Continua o narrador a mostrar Fabiano diante da sociedade. Ele vai comprar querosene: está com água. Vai comprar chita: é cara. É levado ao jogo, não sabe se comunicar, e é preso.
4. Sinhá Vitória
A apresentação de Sinhá Vitória é semelhante à de Fabiano. Aparece a sua dificuldade de relacionamento com os meninos, com a Baleia, com Fabiano. Sua aspiração: ter uma cama.
5. Menino mais novo
Quer espantar o irmão e Baleia. Observa o pai montar a égua. Fabiano cai, de pé. Ele vibra. Sinhá fica indiferente diante da façanha do pai, ele não se conforma com a indiferença da mãe. Tenta se comunicar com o pai, mas não consegue, fica chateado. A Baleia dormia. Foi tentar conversar com a mãe, levou um cascudo. Dorme, Sonha com um mundo adulto. No dia seguinte tenta montar o bode, mas sai sem honra da façanha. Cai, leva coices.
6. Menino mais velho
Quer saber o que seja inferno. Sinhá Vitória fala em espetos quentes, fogueiras. Ele lhe perguntou se vira. A mãe zanga-se, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote. Baleia era o único vivente que lhe mostra simpatia.
7. Inverno
Família reunida em torna do fogo. Não havia conversa, apenas grunhidos. Ninguém entende ninguém, já são poucos humanos.
8. Festa
Iam à festa de Natal na cidade. Na cidade se veem distantes da civilização. Fabiano não fala, mas admira a loquacidade das pessoas da cidade.
9. Baleia
A cachorra Baleia aparecera doente. Fabiano imaginara que ela estivesse com hidrofobia, e amarrara-lhes no pescoço um rosário de sabugo de milho queimado. Ela, de mal a pior. Resolvera matá-la.
10. Contas
Fabiano diante do imposto e da injustiça do patrão Nascera com esse destino, ninguém era culpado por nascer com destino ruim.
11. O soldado amarelo
Fabiano ia corcunda, parecia farejar o solo, quando encontrou o soldado amarelo. Lembrou-se do passado. Quis se vingar. Reviveu todo o passado. Pensou e repensou sua condição.
O soldado, antes cheio de medo, vendo Fabiano acanalhado, ganha coragem, avançou, pisou firme, perguntou o caminho. E Fabiano tirou o chapéu de couro, curvou-se e ensinou o caminho ao soldado amarelo. “Governo é governo.”
12. O mundo coberto de penas
Depois do inverno, de novo seca anunciada nas arribações. Fabiano luta contra a natureza, atira nas arribações.
13. Fuga
O mesmo quadro do primeiro capítulo. No primeiro quadro os meninos se arrastavam atrás dos pais, neste os pais se arrastam atrás dos meninos. Os meninos corriam. Era o destino do Norte – O (nor)destino.
Texto
Fuga
Graciliano Ramos
A vida na fazenda se tornara difícil. Sinhá Vitória benzia-se tremendo, manejava o rosário, mexia os beiços rezando rezas desesperadas. Encolhido no banco do copiar, Fabiano espiava a caatinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam negros, torrados. No céu azul as últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre.
Mas quando a fazenda se despovoou, viu que tudo estava perdido, combinou a viagem com a mulher, matou o bezerro morrinhento que possuíam, salgou a carne, largou-se com a família, sem se despedir do amo. Não poderia nunca liquidar aquela dívida exagerada. Só lhe restava jogar-se ao mundo, como negro fugido.
Saíram de madrugada. Sinhá Vitória meteu o braço pelo buraco da parede e fechou a porta da frente com a taramela. Atravessaram o pátio, deixaram na escuridão o chiqueiro e o curral, vazios, de porteiras abertas, o carro de bois que apodrecia, os juazeiros. Ao passar junto às pedras onde os meninos atiravam cobras mortas, Sinhá Vitória lembrou-se da cachorra Baleia, chorou, mas estava invisível e ninguém percebeu o choro.
Desceram a ladeira, atravessaram o rio seco, tomaram rumo para o sul. Com a fresca da madrugada, andaram bastante, em silêncio, quatro sombras no caminho estreito coberto de seixos miúdos – os meninos à frente, conduzindo trouxas de roupa, Sinhá Vitória sob o baú de folha pintada e a cabaça de água, Fabiano atrás de facão de rasto e faca de ponta, a cuia pendurada por uma correia amarrada ao cinturão, o aió a tiracolo, a espingarda de pederneira num ombro, o saco da malotagem no outro. Caminharam bem três léguas antes que a barra do nascente aparecesse.
Fizeram alto. E Fabiano depôs no chão parte da carga, olhou o céu, as mãos em pala na testa. Arrastara-se até ali na incerteza de que aquilo fosse realmente mudança. Retardara-se e repreendera os meninos, que se adiantavam, aconselhara-os a poupar forças. A verdade é que não queria afastar-se da fazenda. A viagem parecia-lhe sem jeito, nem acreditava nela. Preparara-a lentamente, adiara-a, tornara a prepará-la, e só se resolvera a partir quando estava definitivamente perdido. Podia continuar a viver num cemitério? Nada o prendia aquela terra dura, acharia um lugar menos seco para enterrar-se. Era o que Fabiano dizia, pensando em coisas alheias: o chiqueiro e o curral, que precisavam conserto, o cavalo de fábrica, bom companheiro, a égua alazã, as catingueiras, as panelas de losna, as pedras da cozinha, a cama de varas. E os pés dele esmoreciam, as alpercatas calavam-se na escuridão. Seria necessário largar tudo? As alpercatas chiavam de novo no caminho coberto de seixos.
Agora Fabiano examinava o céu, a barra que tingia o nascente, e não queria convencer-se da realidade. Procurou distinguir qualquer coisa diferente da vermelhidão que todos os dias espiava, com o coração aos baques. As mãos grossas, por baixo da aba curva do chapéu, protegiam-lhe os ombros contra a claridade e tremiam.
Os braços penderam, desanimados.
– Acabou-se.
Antes de olhar o céu, já sabia que ele estava negro num lado, cor de sangue no outro, e ia tornar-se profundamente azul. Estremeceu como se descobrisse uma coisa muito ruim.
Desde o aparecimento das arribações vivia desassossegado. Trabalhava demais para não perder o sono. Mas no meio do serviço um arrepio corria-lhe no espinhaço, a noite acordava agoniado e encolhia-se num canto da cama de varas, mordido pelas pulgas, conjecturando misérias.
A luz aumentou e espalhou-se pela campina. Só aí principiou a viagem. Fabiano atentou na mulher e nos filhos, apanhou a espingarda e o saco de mantimentos, ordenou a marcha com uma interjeição áspera.
(RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 16. ed. São Paulo, Martins, 1967. p. 147-9).
Vocabulário
copiar (s.m.): varanda; alpendre.
aió (s.m.): bolsa feita de fibra de caroá
garrancho (s.m.): ramo tortuoso de arvore.
espingarda de pederneira: espingarda de caça na qual o mecanismo se encontra no exterior da arma.
arribação (s.f.): tipo de ave
morrinhento (adj.): enfraquecido, prostrado.
malotagem (s.f.): provisão de mantimentos.
seixo (s.m.): pedra solta.
alazão (adj.): amarelo-avermelhado.
folha (s.f.): metal.

Memorial do Convento

"Por que escrevo?
Escrevo para não morrer."
(José Saramago)

Análise da professora Esther P.S. Rosado

1. Sobre o autor

Quando a Academia Sueca, no dia 8 de outubro de 1998, anunciou o Prêmio Nobel de Literatura, ele estava sendo, pela primeira vez, atribuído a um escritor de língua portuguesa e O Memorial do Convento completava, então, dezesseis anos de lançamento.
Saramago tinha 76 anos, e somente aos 60 é que atingira notoriedade.
Nascido na pequenina cidade de Azinhaga — Ribatejo -, ao norte de Lisboa, tem suas origens no campo; abandonou os estudos precocemente e, em virtude de dificuldades econômicas da família, fez o curso profissional para serralheiro mecânico. Depois, já adulto, passou por várias experiências profissionais: funcionário público, jornalista, editor.
Em 1969, filiou-se ao Partido Comunista Português, mantendo sempre independência quanto às críticas; devido aos acontecimentos políticos de novembro de 1975, abandonou os jornais e passou a ganhar a vida como tradutor de textos. Somente a partir do lançamento d'O Memorial do Convento, em 1982, é que passou a viver única e exclusivamente de literatura.
A partir de 1992, passa a morar em Lanzarote, ilha do arquipélago das Canárias. Sua obra compreende prosa (contos e romances), poesia e teatro, além de ensaios sobre variados assuntos.
Fartamente premiado, já recebeu , entre outros, o Prêmio Camões (1995).
Biografia
Vida e arte se misturam na história de mais um mito português
Autodidata, José Saramago é verdadeiramente um fenômeno. Como explicar que um homem que apenas concluiu os estudos secundários, face à pobreza da juventude, tenha atingido o ápice de sua carreira literária arrebatando o primeiro Prêmio Nobel de Literatura, o primeiro concedido a um escritor de expressão portuguesa?
Como deixar de admirar um homem que, privado da tranqüilidade financeira necessária ao pleno desenvolvimento da atividade de escrever, e tendo que, paralelamente à carreira literária, labutar arduamente como forma a garantir a sua subsistência, tenha logrado tamanho sucesso em diversos gêneros, alternadamente fazendo as vezes de poeta, romancista e dramaturgo?
Saramago nasceu a 16 de Novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, concelho de Golegã, no Ribatejo. Com apenas dois anos mudou-se com a família para Lisboa. Com cinco anos, ao entrar para a escola, descobriu-se um erro na sua certidão de nascimento. O funcionário do Registro acrescentou Saramago, a alcunha da família, como seu apelido. Desta forma, José foi o primeiro Saramago da família Meirinho Sousa.
O escritor leu seu primeiro livro aos 11 anos: "O Mistério do Moinho", um presente da mãe. Já o seu primeiro emprego foi como serralheiro, nas oficinas do Hospital Civil de Lisboa. Ao mesmo tempo em que trabalhava, Saramago enriquecia sua cultura, lendo tudo que lhe chegasse às mãos.
Foi em 1944 que o jovem José casou-se com a pintora Ilda Reis. Três anos depois, publicou sua primeira novela, chamada "Terra do Pecado." Em 49 nasceu sua primeira filha, que recebeu o nome de Violante.
Em 1966, Saramago lançou seu primeiro livro de poesias, intitulado "Os Poemas Possíveis", para, três anos mais tarde, ingressar no Partido Comunista Português, partido no qual permanece até hoje e do qual virou uma espécie de baluarte, antes e depois do Nobel.
No início da década de 70 o escritor divorciou-se da sua primeira mulher e passou a exercer as funções de editorialista no "Diário de Notícias". Saramago fez de tudo um pouco durante a vida: foi desenhador, funcionário da saúde, representante da previdência social, editor, tradutor e jornalista.
Em 74, tiveram lugar dois acontecimentos importantes na vida de Saramago: antes da revolução, editou seu primeiro livro de crônicas políticas. Depois do 25 de Abril, foi chamado para trabalhar no Ministério de Comunicação Social. Posteriormente foi nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias, cargo em que durou pouco. Desempregado, tomou a melhor atitude que poderia tomar em sua vida, qual seja a de dedicar-se somente à tarefa de escrever, aquilo que sabia fazer melhor, sem dúvida alguma.
Durante alguns meses, mudou-se para Lavre, Montemor-o-Novo, local onde conviveu com os trabalhadores da União Cooperativa de Produção Boa Esperança. Deste relacionamento nasceu "Levantado do Chão", um grande sucesso. No último ano da década de 70 foi galardoado com o Prémio da Associação de Críticos Portugueses pela peça "A Noite". Pouco depois, "Levantado do Chão" recebeu o Prémio Cidade de Lisboa.
Em 1982, mais dois prémios: do PEN Clube Português e o Literário do Município de Lisboa, pelo seu mais novo sucesso, "Memorial do Convento". Dois anos depois surgia "O Ano da Morte de Ricardo Reis", galardoado com o Prémio do PEN Clube Português e com o Prémio Dom Dinis da Fundação Casa de Mateus.
Pouco mais tarde veio mais uma distinção, o Prémio da Crítica pelo conjunto da obra. Os prémios e o reconhecimento não paravam mais: da Itália vieram mais duas vitórias na vida daquele que, apesar das dificuldades encontradas no longo caminho da vida, jamais abdicara de seus sonhos e suas convicções: o Prémio Grinzane-Cavour (Alba) concedido a "O Ano da Morte de Ricardo Reis", o doutoramento "Honoris Causa" da Universidade de Turim.
Foi em 1988 que Saramago casou-se pela segunda vez, com a jornalista espanhola Pilar del Rio, sua companheira até hoje. Em 1990 estreava a ópera Blimunda, no Teatro Alla Scala de Milão, com música de Azio Corghi baseado no libreto extraído de "Memorial do Convento". Um ano depois deu-se o lançamento da obra mais polémica e mais feliz do autor: "O Evangelho segundo Jesus Cristo", imediatamente recebendo o Grande Prémio de Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Saramago venceu também o Prémio Bracati (Zafferana, Itália) e foi nomeado Doutor "Honoris Causa" pela Universidade de Sevilha, sendo posteriormente condecorado Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras Francesas (França).
Em 1992, absurdamente, o governo português proibiu a candidatura de "O Evangelho segundo Jesus Cristo" ao Prémio Literário Europeu, sem saber que o tempo e os fatos seriam implacáveis com essa arbitrariedade.
Seguiu-se mais reconhecimento na Itália: Saramago foi o ganhador Prémio Internacional Ennio Faiano (Pescara) por "Levantado do Chão", e do "Prémio Internacional Literário Mondello" (Palermo).
Em 1993 o escritor mudou-se para Lanzarote, nas Ilhas Canárias e tornou-se membro do Parlamento Internacional de Escritores, com sede em Estrasburgo. Foi consagrado com mais dois Prémios, sendo estes o "The Independent" de ficção estrangeira para a tradução inglesa de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", e o "Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores".
Em 1994 veio a público o primeiro volume da série "Cadernos de Lanzarote", mesmo ano em que Saramago ingressou na Academia Universal das Culturas, de Paris, associou-se à Academia Argentina de Letras, tornou-se membro do Patronato de Honra da Fundação César de Manrique, de Lanzarote e foi proclamado sócio honorário da Sociedade Portuguesa de Autores.
Um ano depois o escritor publicava "Ensaio sobre a cegueira", bem como o segundo volume dos "Cadernos...", arrebatava o Prémio Camões e o Prémio Consagração da Sociedade Portuguesa de Autores, ao passo em que era também alçado à condição de Doutor "Honoris Causa" pela Universidade inglesa de Manchester.
Há muito o mundo já se rendeu ao talento de Saramago e vários de seus livros ganharam tradução pelos quatro cantos do planeta.
As obras de José Saramago encontram-se publicadas na Espanha, na França, Itália, Reino Unido, Holanda, Alemanha, Grécia, Brasil, Bulgária, Polónia, Cuba, Rússia, Checoslováquia, Dinamarca, Israel, Noruega, Roménia, Suécia, Finlândia, Estados Unidos, Japão, Hungria, Suíça, Argentina, Colômbia e México, entre outros.
Contudo, foi em 1998 que veio verdadeiramente o auge de sua carreira literária e, por conseguinte, a coroação da qualidade da literatura de expressão portuguesa, tão injustiçada pelos organizadores do Prémio Nobel durante esse século: José Saramago foi finalmente laureado com o galardão máximo do mundo das letras.
A entrega do Prémio, decorrida a 10 de Dezembro em Estocolmo, na Suécia, não somente fez justiça à excelência desse grande autor lusitano, como simbolizou o reconhecimento - tardio - da importância de nossa literatura, cobrindo tanto os portugueses de Portugal, quanto os que se encontram espalhados pelo mundo, com um raro e imensurável sentimento.

( 01 de Abril de 1999- Jornal da ALBI, Portugal)

Eis aqui o Comunicado da Academia Sueca, Prêmio Nobel de 1988, que distinguiu o escritor português:
Academia Sueca
Comunicado à imprensa
O Secretário permanente 8 de Outubro de 1998
Prêmio Nobel da Literatura 1998
José Saramago
que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia
O português José Saramago faz 76 anos de idade em Novembro. É um prosador oriundo da classe trabalhadora que só atingiu a celebridade quando cumpriu os 60 anos. Desde então alcançou a notoriedade e tem visto a sua obra ser frequentemente traduzida. Vive presentemente nas ilhas Canárias.
"Manual de Pintura e Caligrafia : um romance", que saiu em 1977, ajuda-nos a entender o que viria a acontecer mais tarde. No fundo, trata-se do nascimento de um artista, tanto o do pintor como o do escritor. O livro pode, em grande parte, ser lido como uma autobiografia mas, na sua intensidade, encerra também o tema do amor, assuntos de natureza ética, impressões de viagens e reflexões sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade. A libertação alcançada com a queda do regime salazarista transforma-se numa imagem final portadora de abertura.
"Memorial do Convento", de 1982, é o romance que o vai tornar célebre. É um texto multifacetado e plurissignificativo que tem, ao mesmo tempo, uma perspectiva histórica, social e individual. A inteligência e a riqueza de imaginação aqui expressadas caracterizam, de uma maneira geral, a obra saramaguiana. A ópera "Blimunda", do compositor italiano Corghi, baseia-se neste romance.
"O Ano da Morte de Ricardo Reis", publicado em 1984, é um dos pontos altos da sua produção literária. A acção passa-se formalmente em Lisboa no ano de 1936, em plena ditadura, mas possui um ambiente de irrealidade superiormente evocado. Este ambiente de irrealidade é acentuado pelas repetidas visitas do falecido poeta Fernando Pessoa a casa da personagem principal (que é extraída da produção pessoana) e das suas conversas sobre os condicionalismos da existência humana. Juntos deixam o Mundo após o seu último encontro.
Em "A Jangada de Pedra", publicada em 1986, o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.
Existem todas as razões para também mencionar "História do Cerco de Lisboa", de 1989, um romance sobre um romance. A história nasce da obstinação de um revisor ao acrescentar um não, um estratagema que dá ao acontecimento histórico um percurso diferente e, ao mesmo tempo, oferece ao autor um campo livre à sua grande imaginação e alegria narrativa, sem o impedir de ir ao fundo das questões.
"O Evangelho segundo Jesus Cristo", de 1991, romance sobre a vida de Jesus encerra, na sua franqueza, reflexões merecedoras de atenção sobre grandes questões. Deus e o Diabo negoceiam sobre o Mal. Jesus contesta o seu papel e desafia Deus.
Um dos romances destes últimos anos aumenta consideravelmente a estatura literária de Saramago. É publicado em 1995 e tem como título "Ensaio sobre a Cegueira". O autor omnisciente leva-nos numa horrenda viagem através da interface que é formada pelas percepções do ser humano e pelas camadas espirituais da civilização. A riqueza efabulatória, excentricidades e agudeza de espírito encontram a sua expressão máxima, de uma forma absurda, nesta obra cativante. "Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem."
O último dos seus romances, "Todos os Nomes", sairá este Outono, em tradução sueca.Trata-se de uma história sobre um pequeno funcionário público da Conservatória dos Registos Centrais de dimensões quase metafísicas. Ele fica obcecado por um dos nomes e segue a sua pista até ao seu trágico final.
A arte romanesca multifacetada e obstinadamente criada por Saramago, confere-lhe um alto estatuto. Em toda a sua independência Saramago invoca a tradição que, de algum modo, no contexto actual, pode ser classificada de radical. A sua obra literária apresenta-se como uma série de projectos onde um, mais ou menos, desaprova o outro mas onde todos representam novas tentativas de se aproximarem da realidade fugidia.
( Texto retirado do site sobre o Prêmio Nobel de 1998)

2. Obras Publicadas:
Poesia
Os Poemas Possíveis, 1966
Provavelmente Alegria, 1970
O Ano de 1993, 1975
Crônica
Deste Mundo e do Outro, 1971
A Bagagem do Viajante, 1973
As Opiniões que o DL teve, 1974
Os Apontamentos, 1976
Diário
Cadernos de Lanzarote I, 1994
Cadernos de Lanzarote II, 1995
Cadernos de Lanzarote III, 1996
Cadernos de Lanzarote IV
Viagem
Viagem a Portugal, 1981
Teatro
A Noite, 1979
Que Farei Com Este Livro?, 1980
A Segunda Vida de Francisco de Assis, 1987
In Nomine Dei, 1993
Conto
Objecto Quase, 1978
Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, 1979
Romance
Manual de Pintura e Caligrafia, 1977
Levantado do Chão, 1980
Memorial do Convento, 1982
O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984
A Jangada de Pedra, 1986
História do Cerco de Lisboa, 1989
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991
Ensaio sobre a Cegueira, 1995
Terra do Pecado
Todos os Nomes
As obras de José Saramago encontram-se publicadas nos seguintes países: Espanha (Castelhano e Catalão), França, Itália, Reino Unido, Holanda, Alemanha (Edições na RDA e na RFA), Grécia , Brasil, Bulgária, Polônia, Cuba, União Soviética (Russo), Checoslováquia (Checo e Eslovaco), Dinamarca, Israel, Noruega, Romênia, Suécia, Finlândia, Estados Unidos, Japão, Hungria, Suíça, Argentina, Colômbia, México.
O seu romance "Memorial do Convento" foi adaptado para a Ópera pelo compositor italiano Azio Corghi, com o título "Blimunda".
A peça de teatro "In Nomine Dei" foi adaptada para a Ópera por Azio Corghi, com o título "Divara".
Memorial do Covento
3. O romance e sua estrutura:
" Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem,
fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e
tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu."
( José Saramago)
3.1 Capítulos:
O romance está dividido em 25 capítulos não-denominados, sem numeração alguma também, estabelecendo-se como divisão apenas os espaços em branco entre os que compõem a obra.
3.2 Espaço:
No romance existem alguns espaços nomeados:
1. O palácio que abriga a nobreza de D. João V, por onde o clero transita com facilidade; 2. As ruas de Lisboa, sempre cheias da "arraia-miúda", o povo pobre , faminto; 3. A quinta ( chácara) para onde vão Blimunda e Baltazar construir a Passarola; 4. A cidade de Mafra e os arredores.
3.3 Tempo:
O tempo narrativo é do tipo cronológico e está inserido entre duas datas: "dezessete de novembro deste ano da graça de 1717" e , como indica o último capítulo, a data da morte do escritor e comediógrafo brasileiro Antônio José da Silva, o Judeu, autor das Guerra de Alecrim e Manjerona, em 1739.
Ou seja, a história que vamos analisar tem duração temporal de 22 anos.
3.4 Foco narrativo:
O foco narrativo do romance é do tipo cambiante, também chamado múltiplo, com predominância em 3a. pessoa.
Verifique os exemplos:
1. Foco com terceira pessoa:
"Já se deitaram. Esta é a cama que veio da Holanda quando a rainha veio da Áustria, mandada fazer de propósito pelo rei, a cama, a quem custou setenta e cinco mil cruzados, que em Portugal não há artífices de tanto primor, e, se os houvesse, sem dúvida ganhariam menos. A desprevenido olhar nem se sabe se é de madeira o magnífico móvel, coberto como está pela armação preciosa, tecida e bordada de florões e relevos de ouro, isto não falando do dossel que poderia servir para cobrir o papa. Quando a cama aqui foi posta e armada ainda não havia percevejos nela, tão nova era, mas depois, com o uso, o calor dos corpos, as migrações no interior do palácio, ou da cidade para dentro, rica de matéria e adorno não se lhe pode aproximar um trapo a arder para queimar o enxame, não há mais remédio, ainda não o sendo, que pagar a Santo Aleixo cinqüenta réis por ano, a ver se livra a rainha e a nós todos da praga e da coceira." (p. 16)
Observação: Tanto em primeira quanto em terceira pessoas , o narrador se comporta como uma espécie de "guia" para seus leitores. Usa pronomes demonstrativos como se apontasse os acontecimentos, os seres e as coisas:
"Esta é a cama que veio da Holanda(...)"
"Este que por desafrontada aparência, sacudir da espada e desparelhadas vestes, ainda que descalço, parece soldado, é Baltazar Mateus."
2. Terceira + primeira: cambiante
"A pontos de há pouco tempo terem soltado uns cento e cinqüenta de culpas menos pesadas, que então estavam no Limoeiro, por junto, mais de quinhentos, com as muitas levas de homens que vieram para a Índia e que acabaram por não ser necessários, e era tanto o ajuntamento, e a fome tanta, que se declarou uma doença que nos ia matando a todos, por isso soltaram aqueles, um deles sou eu."
"(...) enquanto não vai corporalmente acabar em Angola, para onde irá degredado por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã- nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco(...)
4. Personagens históricos:
"Devem ser felizes os santos , assim como os fizeram, assim
ficam, se isto é a santidade, que será a condenação."
José Saramago
Em seu Memorial do Convento, o escritor português inseriu personagens reais, históricas, pertencentes ao século XVIII:
1. D. João Quinto, rei de Portugal, a quem se atribuía grande sabedoria, mau humor e sexualidade exagerada. No romance, é retratado como um libertino ignorante, libidinoso e vulgar, que gostava de montar réplica da Basílica de S. Pedro.
2. D. Ana Maria Josefa, princesa austríaca que se tornou rainha de Portugal, casada com D. João V. A história a descreve como beata, submissa e medrosa.
3. Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, brasileiro, nascido em 1685, apelidado de "O Voador" por ter inventado a passarola ( aeróstato); morto em 1724, dado como louco pela Inquisição.
4. Domênico Scarlatti, músico italiano barroco, compôs inúmeras músicas para cravo e esteve realmente em Portugal por tempos, ensinando música para a infanta D. Beatriz. Ao voltar à Itália, notabilizou-se e ganhou nome e destaque como compositor e maestro.
5. Personagens de ficção:
As personagens que compõem este romance nos encantam pela singeleza de que são compostas, pela coragem, bravura. Mas sobretudo nos encantam pelo que são de humanas, inquietas e capazes de ir ao encontro de seu verdadeiro destino.
1. Blimunda de Jesus ( Blimunda Sete-Luas)
Blimunda é uma criatura diferente: enxerga as pessoas "por dentro" se estiver em jejum. Tem 19 anos, é forte, decidida, ama Baltazar assim que o vê, sabia que ele seria seu amor para sempre: "Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador umedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltazar, sobre o coração. Estavam ambos nus."
2. Baltazar Mateus ( Baltazar Sete-Sóis)
Fora soldado e, na guerra, perdera a mão esquerda: "Foi mandado embora do exército por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso, estraçalhada por uma bala em frente de Jerez de los Caballeros."
Tem 26 anos, é forte e destemido.
Também sabe que terá Blimunda para sempre: "Baltazar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros noturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra."
3. Outras personagens: João Elvas, Manuel Milho, José pequeno, Álvaro Diogo e Inês Antônia ( cunhado e irmã de Baltazar), Marta Maria (mãe de Baltazar) e João Francisco ( pai de Baltazar).
6. A pontuação "estranha":
Leia o trecho:
"(...) Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar. Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste. Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.
Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltazar, e Blimunda respondeu, Dezenove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador umedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltazar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltazar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro."
Ler Saramago é isso: uma certa dificuldade (a princípio) de saber quem fala. A pontuação não obedece a marcação comum e os diálogos entre as personagens são introduzidos por vírgulas que se interpõem entre os discursos diretos. Só sabemos que o interlocutor se manifesta porque após a vírgula aparece uma letra maiúscula. São, também, excluídos os pontos de interrogação e exclamação.
Isso não ocorre, no entanto, quando se trata de discurso do narrador:
"Não dormiu ele, ela não dormiu. Amanheceu, e não se levantaram, Baltazar apenas para comer, Baltazar apenas para comer uns torresmos frios e beber um púcaro de vinho, mas depois tornou a deitar-se, Blimunda quieta, de olhos fechados, alargando o tempo do jejum para se lhe aguçarem as lancetas dos olhos, estiletes finíssimos quando enfim saírem para a luz do sol, porque este é o dia de ver, não o de olhar, que esse pouco é o que fazem os que, olhos tendo, são outra qualidade de cegos. Passou a manhã, foi a hora de jantar, que é este o nome da refeição do meio-dia, não esqueçamos, e enfim levanta-se Blimunda, descidas as pálpebras, faz Baltazar a sua segunda refeição, ela pra ver não come, ele nem assim veria, e depois saem de casa, o dia está tão sossegado que nem parece próprio para estes acontecimentos, Blimunda vai à frente, Baltazar atrás, para que o não veja ela, para que saiba ele o que ela vê, quando lho disser."
7. Os capítulos um a um:
Primeiro
"O cântaro está à espera da fonte."
D. João V está casado com D. Maria Ana Josefa há mais de dois anos, mas ela ainda não engravidou. "Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça."
A rainha reza novenas e, duas vezes por semana, recebe o rei em seus aposentos.
É preciso dizer aqui que o rei, quando ambos se casaram, dormia com ela todos os dias, mas resolveu separar os aposentos por causa de um cobertor de penas de ganso que trouxe ela da Áustria, e, com o passar do tempos, somando-se a ele humores de ambos, passou a ter cheiro insuportável:
"(...) e venham as damas a este aconchegar D. Maria Ana debaixo do cobertor de penas que trouxe da Áustria também e sem o qual não pode dormir, seja Inverno ou Verão. E é por causa deste cobertor, sufocante até no frio Fevereiro, que D. João V não passa toda a noite com a rainha, ao princípio sim, por ainda superar a novidade ao incômodo, que não era pequeno sentir-se banhado em suores próprios e alheios, com uma rainha tapada por cima da cabeça, recozendo cheiros e secreções."
O rei não fez ainda 22 anos e monta, para se distrair e porque gosta, a réplica da Basílica de S. Pedro.
Mas, "O cântaro está à espera da fonte." metáfora para definir que a rainha está à espera do rei como se fora um vaso onde ele depositará seu sucessor. E para os aposentos da rainha o rei se dirige, mas , como se fosse um apresentador, o narrador nos informa que chegou ao castelo D. Nuno da Cunha, bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho. Afirma o bispo que o frei Antônio de São José assegurou que se o rei se dignasse a construir um convento em Mafra, teria descendência:
"Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei Antônio disse, Sei, não sei como vim a saber , eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé já não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá."
Enquanto isso, a rainha conversa com a marquesa de Unhão, rezam jaculatórias e proferem nomes de santos. Saído o bispo e o frei, o rei se anuncia "e vem de espírito aceso, estimulado pela conjunção mística do dever carnal e da promessa que fez a Deus por intermédio e bons ofícios de frei Antônio de S. José."
D. Maria tem que "guardar o choco", a conselho dos médicos e murmura orações, pedindo ao menos um filho que seja. Sonha com o infante D. Francisco, seu cunhado e dorme em paz. Em paz? Os percevejos, mal cessam as mexidas no colchão real, "começam a sair das fendas, dos refegos, e se deixam cair do alto do dossel, assim tornando mais rápida a viagem."
D. João também sonhará esta noite, em seu quarto. Sonhará com seus descendentes, com o filho que poderá advir da promessa da construção do convento de Mafra. Um convento, conforme disse frei Antônio de S. José, só para franciscanos...
Segundo
"Mas isso, confessemo-lo sem vergonha, é uma terra
de ladrões, olho vê, mão pilha..."
Aqui, o narrador fala sobre determinados milagres ocorridos em Lisboa. Mas, na verdade, prepara o comentário para o desfecho deste capítulo:
"Bem servido de milagres, igualmente. Ainda é cedo para falar deste que se prepara ( atenção: refere-se ao "milagre"da rainha ter engravidado) , aliás milagre não tanto, mas simples obséquio divino, descimento de olhar piedoso e propiciatório para um ventre sáfaro, qual há-de ser o nascimento do infante na hora própria, mas é justamente tempo de mencionar veros e certificados milagres que, por virem da mesma e ardentíssima sarça franciscana, bem auguram da promessa do rei."
Frei Miguel da Anunciação morreu de tifo ( ou febre tifóide) e seu corpo exalou, durante três dias, nas cerimônias, um suavíssimo cheiro: "(...) se vivo fizera caridades, defunto obrava maravilhas."
A notícia correu e, antes que invadissem a igreja à procura de milagres, levaram o corpo às ocultas, e às ocultas o enterraram:
"Privados da esperança de cura enquanto não constasse o passamento doutro bem-aventurado, no mesmo lugar se esbofetearam de desespero e fé lograda mudos e manetas, se a estes lhes sobrava mão, em gritos todos e invocações a quantos santos, até que os padres saíram fora a benzer o ajuntamento, e com essa suficiência, à falta de melhor, se foram uns e outros."
O narrador enfatiza que Lisboa é terra de ladrões que pilham as igrejas e acrescenta que outros lugares também foram roubados: Guimarães, por exemplo. Um outro caso que é narrado sobre milagres é o de ladrões que foram roubar a igreja de S. Francisco e que lá foram recebidos pelo próprio santo, em pessoa. Um dos ladrões, tomado pelo pavor, sofreu um choque tão grande que ficou como morto, estatelado, no chão. Socorrido por fiéis que o colocaram sobre o altar, recuperou-se. O santo transpirou demasiado e para fazer acordar o homem que estava dado como morto, passaram nele uma toalha umedecida com o suor do santo. O ladrão se recuperou e, levantou-se e foi embora, "salvo e arrependido".
Outro caso contado pelo narrador é o do furto de três lâmpadas de prata do convento de S. Francisco de Xabregas no qual entraram gatunos pela clarabóia e, passando junto à capela de Santo Antônio, nada ali roubaram . Entrando na igreja, os frades deram com ela às escuras. Constato que não era o azeite que faltava, mas as lâmpadas que haviam sido levadas; os religiosos ainda puderam ver as correntes de onde pendiam as lâmpadas se balançando e saíram esbaforidos pelas estradas, atrás dos ladrões.
E então, desconfiados de que os ladrões pudessem estar ainda escondidos na igreja, deram volta a ela, palmilharam-na e só então viram que no altar de Santo Antônio, rico em parta, nada havia sido mexido.
O frade, inflamado pelo zelo, culpou Santo Antônio por ter deixado ali passar alguém, sem que nada lhe tirasse, e ir roubar ao altar-mor:
"E vós, santo, só guardais a prata que vos toca, e deixais levar a outra, pois em paga disso não vos há de ficar nenhuma , e ditas estas violentíssimas palavras, foi-se à capela e começou a despi-la toda, tirando não só as pratas, mas as toalhas e adornos, e não só à capela, mas também ao próprio santo, que viu levarem-lhe a auréola de tirar e pôr, e a cruz, e que ficaria sem Menino ao colo se outros religiosos não tivessem acudido, achando a punição excessiva e advertindo que o deixasse para consolação do pobre castigado."
O frade deixou que o Menino "como fiador", até que o santo se dignasse a devolver as lâmpadas. Dormiram os frades, alguns temerosos que o santo se desforrasse do insulto...
Na manhã seguinte, apareceu na portaria do convento um estudante que, querendo falar ao prelado, revelou estarem as lâmpadas no Mosteiro da Cotovia, dos padres da Companhia de Jesus. O narrador faz-nos desconfiar que tal estudante, apesar de querer ser padre, fora o autor do furto e que, arrependido, deixara lá as lâmpadas, posto não ter coragem de restituí-las pessoalmente.
Voltaram as lâmpadas a S. Francisco de Xabregas...
Retoma o narrador o caso do frei Antônio de S. José , observe que ele ( o narrador) faz-nos de novo desconfiar de que o frei, através do confessor de D. Maria Ana, tinha sabido da gravidez da rainha bem antes de que o rei:
"Vimos como em instância final saiu absolvido o estudante da suspeita do roubo das lâmpadas. Agora não se vá dizer que, por segredos de confissão divulgados, souberam os arrábidos que a rainha estava grávida antes mesmo que ela o participasse ao rei. Agora não se vá dizer que D. Maria Ana, por ser tão piedosa senhora, concordou calar-se o tempo bastante para aparecer com o chamariz da promessa o escolhido e virtuoso frei Antônio. Agora não se vá dizer que el-rei contará as luas que decorrerem desde a noite do voto ao dia em que nascer o infante, e as achará completas. Não se diga mais do que ficou dito.
“Saiam então absolvidos os franciscanos desta suspeita, se nunca se acharam noutras igualmente duvidosas."
Ou seja, nem é preciso que se comente o que o narrador quis dizer: D. Maria Ana foi usada para que os franciscanos obtivessem a construção do Convento em Mafra.
Terceiro
"(...) é porque a cidade é imunda, alcatifada de excrementos, de lixo,
de cães lazarentos e gatos vadios, e lama mesmo quando não chove.
“Agora é tempo de pagar os cometidos excessos."
O narrador inicia o capítulo contando que há quem morra por comer muito a vida toda e não falta que morra por ter comido pouco durante toda a vida. Lisboa é uma cidade imunda, cheia de lixo, gatos e cães abandonados, atapetada de excrementos. Foi-se o Entrudo ( festas pagãs assemelhadas ao Carnaval) , ocasião em que as pessoas comeram sem parar , e inicia-se a Quaresma, tempo de martirizar o corpo físico:
"Agora é tempo de pagar os cometidos excessos, mortificar a alma para que o corpo finja arrepender-se, ele rebelde, ele insurrecto, este corpo parco e porco da pocilga que é Lisboa.
Vai sair a procissão de penitência. Castigamos a carne pelo jejum, maceremo-la agora pelo açoite. Comendo pouco purificam-se os humores, sofrendo alguma coisa escovam-se as costuras da alma."
Os homens vão à procissão e as mulheres ficam à janela, "esse é o costume."
Os penitentes passam com grilhões enrolados às pernas, os ombros suportando grossas barras de ferro; chicoteiam-se com cordões em cujas pontas prendem-se bolas de cera dura "armadas de cacos de vidro, e estes que assim se flagelam é que são o melhor da festa porque exibem verdadeiro sangue que lhes corre da lombeira, e clamam estrepitosamente, tanto pelos motivos que a dor lhes dá como de óbvio prazer, que não compreenderíamos se não soubéssemos que alguns têm os seus amores à janela e vão na procissão menos por causa da salvação da alma do que por passados ou prometidos gostos do corpo. "
Enquanto o povo de diverte (!) com tal procissão, o narrador faz digressões sobre os adúlteros e infiéis, sobretudo adúlteras e disso estão excluídas as rainhas "principalmente se já estão grávidas, e de seu legítimo senhor, que por nove meses não voltará a aproximar-se delas, regra aliás comum ao popular, mas que vai sofrendo as suas infrações. D. Maria Ana, com razões acrescentadas de recato, tem a mais maníaca devoção com que foi educada na Áustria, e a cumplicidade que deu ao artifício ao franciscano, assim mostrando ou dando a entender que a criança que em seu ventre se está formando é tão filha do rei de Portugal como do próprio Deus, a troco de um convento."
Depois de rezar, D. Maria Ana, acompanhada das damas, começa a adormecer. Sonha com o sudário e quando adormece profundamente aparece-lhe o cunhado Francisco, montado em um cavalo enfeitado, voltando da caça: "observa a rainha que de cada vez chega o infante mais perto, que quererá ele, e ela que quererá."
Acaba a Quaresma, e a natureza canta, livre de cuidados.
Quarto
"Um homem precisa de fazer a sua provisão de sonhos"
"Na guerra, há mais caridade."
Baltazar é apresentado a nós e, a partir daqui, serão ele e Blimunda as nossas personagens protagonistas. Observe que o narrador nos apresenta o Sete-Sóis como se fosse um guia de sua história, a que você está lendo, usando demonstrativo "este", como se fôssemos visitantes da narrativa . É uma belíssima apresentação, esta:
"Este que por desafrontada aparência, sacudir da espada e desparelhadas vestes, ainda que descalço, parece soldado, é Baltazar Mateus, o Sete-Sóis. Foi mandado embora do exército por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso, estraçalhada por uma bala em frente de Jerez de los Caballeros, na grande entrada de onze mil homens que fizemos em Outubro do ano passado e que se terminou com a perda de duzentos nossos e debandada dos vivos, acossados pelos cavalos que os espanhóis fizeram sair de Badajoz."
Observe aqui como o narrador troca o foco narrativo e assume a primeira pessoa, um soldado entre os onze mil que debandaram. Atente para a figura de Baltazar: desparelhadas vestes, sem a mão esquerda. Há um toque de lástima e horror quando o narrador se dispõe e dizer como lhe cortaram a mão, mas há também, na figura de Baltazar uma coisa qualquer, inexplicável talvez, que o faz forte e, ao mesmo tempo, tão frágil para as coisas deste mundo tão difícil. Para ele, nós saberemos mais adiante, haverá o amor de Blimunda Sete-Luas. E a este amor ele fará jus.
"Por muita sorte, ou graça particular do escapulário que traz ao peito, não gangrenou a ferida ao soldado nem lhe rebentaram as veias com a força com a força do garrote, e, sendo hábil o cirurgião, bastou desarticular-lhe as juntas, desta vez nem foi preciso meter o serrote ao osso. Com ervas cicatrizantes lhe almofadaram o coto, e tão excelente era a carnadura de Sete-Sóis que ao cabo de dois meses estava sarado.
Por ser pouco o que pudera guardar do soldo, pedia esmola em Évora para juntar moedas que teria de pagar ao ferreiro e ao seleiro se queria ter o gancho de ferro que lhe havia de fazer as vezes da mão. “Assim passou o Inverno forrando metade do que conseguia angariar, acautelando para o caminho metade da outra metade e entre a comida e o vinho se lhe ia o resto."
Sem a mão, que ficara metade em Portugal, metade na Espanha, Baltazar não se dobrara: mandara fazer um gancho e um espigão, perambulara pelo interior de Portugal, soubera que o exército de que fizera parte andava agora roto e disperso, a tropa andava descalça e violentando mulheres, "cobrando, enfim, a dívida de quem nada lhes devia e sofria de desespero igual."
Baltazar dirigia-se agora para Lisboa, credor de uma mão que perdera na guerra:
"Veio andando devagar. Não tem ninguém à sua espera em Lisboa, e em Mafra, donde partiu anos atrás para assentar praça na infantaria de sua majestade, se pai e mãe se lembram dele, julgam-no vivo porque não têm notícias de que esteja morto, ou morto porque as não têm de que seja vivo. Enfim, tudo acabará por saber-se com o tempo."
Leva os ferros no alforge porque, em dados momentos, sente que ainda tem a mão e, por isso, se sente mais livre e feliz. É como se escondesse de si mesmo esta infelicidade:
"E quando esta noite sonhar, se a si próprio se olhar no sono, ver-se-á sem que nada lhe falte e poderá apoiar a cabeça cansada nas palmas das duas mãos."
Passa por Pegões e ali matará um homem, entre dois que o quiseram roubar, mesmo que os avisasse que nada portava de valor. Observe o narrador em foco cambiante:
"Matará adiante um homem, de dois que o quiseram roubar, mesmo tendo-lhes ele gritado que não levava dinheiros, porém vindo nós de uma guerra onde vimos morrer tanta gente(...)"
Baltazar sonha frequentemente que ainda tem a mão que perdera; anda descalço: "Não há pior vida que a do soldado."
De barco, terminou o percurso e chegou a Lisboa, finalmente. O cais imundo, com seus cheiros, aguça os sentidos de Baltazar e torce-lhe o estômago, mas ele tem esperanças de que o indenizem pela mão perdida. De longe, vê o palácio de D. João V e vendo passar as pessoas, dá-lhe uma enorme saudade da guerra. Andou por bairros e praças e , por fim, à tarde, foi beber um caldo à portaria do convento de São Francisco.
Conhece João Elvas, soldado como ele, um pouco mais velho. Ambos pobres, perdidos por Lisboa, procuram um lugar para dormir: dormiram entre homens, uns temendo os outros, contando casos de assassinatos e mortes.
Quinto
"Olhaste-me por dentro..."
D. Maria Ana está de luto pela morte do irmão José, imperador da Áustria, que morreu de varíola. Apesar de grávida, sangraram-na três vezes e deixaram-na tão debilitada a ponto de estar abatida.
O palácio também está triste, o rei declarou luto oficial; mas a cidade, esclarece o narrador, está alegre:
"Porém, hoje é dia de alegria geral, porventura a palavra será imprópria, porque o gosto vem de mais fundo, talvez da alma, olhar esta cidade saindo de suas casas, despejando-se pelas ruas e praças, descendo dos altos, juntando-se no Rossio para ver justiçar a judeus e cristãos-novos, a hereges e feiticeiros, fora aqueles casos menos correntemente qualificáveis, como os de sodomia, molinismo, reptizar mulheres e solicitá-las, e outras muiçalhas passíveis de degredo ou fogueira. São cento e quatro pessoas que hoje saem, as mais delas vindas do Brasil, úbere terreno para diamantes e impiedades, sendo cinqüenta e um os homens e cinqüenta e três as mulheres."
Hoje vai haver um auto-de-fé, é um domingo e os moradores gostam de assistir aos tormentos impostos aos condenados. O rei jantará na Inquisição junto com os irmãos, os infantes, a rainha, pelo motivo exposto, não participará da festa. Abunda a comida, o rei é sóbrio e não bebe vinho.
"Começou a sair a procissão, vêm os dominicanos à frente, trazendo a bandeira de S. Domingos, e os inquisidores depois, todos em comprida fila, até aparecerem os sentenciados, foi já dito que cento e quatro, trazem círios na mão, ao lado os acompanhantes, e tudo são rezas e murmúrios, por diferenças de gorro e sambenito se conhece quem vai morrer e quem não, embora um outro sinal haja que não mente, que é ir o alçado crucifixos de costas voltadas para as mulheres que acabarão na fogueira, pelo contrário mostrando a sofredora e benigna face àqueles que desta escaparão com vida, maneira simbólica de se entenderem todos que trazem vestido, e isso sim, é tradução visual da sentença, o sambenito amarelo com a cruz de Santo André a vermelho para os que não mereceram a morte(...)"
O povo furioso grita impropérios aos condenados, as mulheres , debruçadas nos peitoris, guincham: "a procissão é uma serpente enorme". Entre as pessoas, está Sebastiana Maria de Jesus, a mãe de Blimunda , "um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfêmias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola."
Procura aflitamente pela filha, que imaginava estar condenada também a degredo e de quem não ouviu o nome. Vê a filha entre as pessoas que acompanham o auto, mas sabe que ela não poderá falar-lhe, sob pena de condenação:
"(...) e ao lado dela está o padre Batolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles, poder meu, pelas roupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltazar Mateus, também me chamam Sete-Sóis."
Aqui encontramos, pela primeira vez juntas, as três personagens protagonistas deste romance. Blimunda indaga o nome a Baltazar. Não se dirige à mãe, "Porém, agora, em sua casa, choram os olhos de Blimunda como duas fontes de água."
O padre e Baltazar estavam com ela em casa:
"Baltazar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros noturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra."
Baltazar nem sabia por que viera àquela casa; depois do auto-de-fé viera a ela com padre Bartolomeu Lourenço; Blimunda deixara a porta aberta para que Baltazar entrasse. Ele viera atrás, o padre acendera a candeia e Blimunda esquentou a sopa para os três.
Havia somente uma colher. O padre comeu primeiro e passou-a a Baltazar e, depois, pegando a colher de que se servira o soldado, dirigiu-se à Blimunda:
"Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de ser perguntada, Então, declaro-vos casados."
Casados...
O padre deitou a bênção em tudo quanto cercava o casal e saiu.
Blimunda jura que nunca olhará por dentro de Baltazar , ele retruca que ela já o fez: "Juras que não o farás, e já o fizeste."
Deitaram-se. Blimunda era virgem e entrega-se a ele. Com o sangue que correu dela, persignou-se, fez uma cruz sobre o peito de Baltazar. E quando amanheceu, ele viu Blimunda deitada a seu lado, de olhos fechados, a comer pão.
Quando terminou de comer, abriu os olhos e disse: "Nunca te olharei por dentro."
Sexto
"Só te direi que se trata de um grande mistério, voar é uma simples
coisa comparando com Blimunda."
O narrador fala sobre comer pão e de como, em Portugal, não há trigo que baste ao perpétuo apetite de pão dos portugueses. Divaga sobre esse hábito antigo e arraigado ao povo daquele país.
Corre um boato de que os franceses estão para invadir Portugal, mas chega, na verdade, uma frota francesa trazendo bacalhau, o que andava em falta. Baltazar imagina como se sentem os soldados que esperavam pela batalha, "sabe como bate então o coração, que irá ser de mim, se daqui a pouco ainda estarei vivo, apura-se um homem à altura da possível morte e depois vêm dizer-lhe que estão a descarregar fardos de bacalhau na Ribeira nova, se os franceses vêm a saber do engano, ainda se rirão mais de nós."
O soldado que mora em Baltazar sente saudades da guerra, mas imagina que se para lá fosse teria muitas saudades, demasiadas, de Blimunda, de quem ainda não consegue decifrar direito a certa cor dos olhos.
Estavam Baltazar e João Elvas no Terreiro do Paço, conversando , quando viram sair do palácio o padre Bartolomeu de Gusmão; João Elvas o aponta como "o Voador". O padre chama Baltazar a um lado e diz que, após ter falado aos desembargadores sobre a pensão de guerra pretendida pelo soldado, por ter perdido nela a mão, responderam a ele que "iam ponderar o teu caso, se vale a pena fazeres petição, depois me darão uma reposta."
Baltazar pergunta quando poderá obter a resposta e Bartolomeu diz que não sabe, mas promete pessoalmente falar ao rei, "que me distingue com sua estima e proteção." O soldado espanta-se ao saber que o padre privava da amizade do rei e nada fez para salvar a mãe de Blimunda, que também era sua conhecida: "que padre é este padre, palavras estas últimas que Sete-Sóis não terá dito em voz alta, só inquieto as pensou."
O narrador fala sobre Bartolomeu de Gusmão, brasileiro que novo ainda foi estudar em Portugal e que, pela sua genealidade e inteligência, ficou de todos conhecido e admirado.
Baltazar pergunta a ele por que o apelidaram O Voador. O padre diz porque voara:
"Com perdão da confiança, só os pássaros voam, e os anjos, e os homens quando sonham, mas em sonhos não há firmeza, Não tens vivido em Lisboa, nunca te vi, Estive na guerra quatro anos e a minha terra é Mafra, Pois eu faz dois anos que voei, primeiro fiz um balão que ardeu, depois construí outro que subiu até ao teto duma sala do paço, enfim outro que saiu por uma janela da Casa da Índia e ninguém tornou a ver, Mas voou em pessoa, ou só voaram os balões, foi o mesmo que ter voado eu."
Bartolomeu se queixa de que as pessoas não o compreendem e diz temer o Santo Ofício, por isso tem amizades que o defendam e é cheio de precauções. O soldado, então, pergunta a ele, que conhecia a mãe de Blimunda e sabia-lhe as artes, por que a moça sempre come pão antes de abrir os olhos.
" Porque come Blimunda pão antes de abrir os olhos de manhã, Sim, Se o vieres a saber um dia, será por ela, por mim não, Mas sabe a razão, Sei, E não ma diz, Só te direi que se trata de um grande mistério, voar é uma simples coisa comparando com Blimunda."
Bartolomeu convide Baltazar para ir a S. Sebastião da Pedreira ver a máquina que estava construindo; aluga uma mula, mas Baltazar vai a pé; o padre lhe diz que cham por ironia o seu objeto voador de "passarola" . Ao chegar ao portão da quinta do duque, onde está a máquina voadora, o padre tira a chave do bolso e abre o portão, depois conduz Baltazar até o celeiro:
"O padre retirou a tranca, empurrou a porta, afinal não estava vazia a grande casa, viam-se panos de vela, barrotes, rolos de arame, lamelas de ferro, feixes de vimes, tudo arrumado por espécies, em boa ordem, e , ao meio, no espaço desafogado, havia o que parecia uma enorme concha, toda eriçada de arames, como um cesto que, em meio ao fabrico, mostra as guias do entrançado. "
Bartolomeu indica-lhe leme, velas e mastro e o convida para trabalhar para ele, o que assusta o soldado, que se considera, na realidade, um homem do campo e, ainda por cima, maneta:
"Com essa mão e esse gancho podes fazer tudo quanto quiseres, e há coisas que um gancho faz melhor que a mão completa, um gancho não sente dores se tiver de segurar um arame ou um ferro, nem se corta, nem se queima, e eu te digo que maneta é Deus, e fez o universo. (...)
Que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus, não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência, portanto Deus é maneta. Respirou fundo o padre, e concluiu, Da mão esquerda."
Sete-Sóis ouvira com atenção a explicação do padre e levantando um pouco os braços, tomado de coragem, disse:
"Se Deus é maneta e fez o universo, este homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão-de voar."
Sétimo
"Todos os homens são reis, rainhas são todas as mulheres,
e príncipes os trabalhos de todos."
O padre arranjou emprego para Baltazar, enquanto não pode, por falta de dinheiro, continuar a construir a passarola. O Sete-Sóis trabalha num açougue do Terreiro do Paço, transportando peças de carne nas costas. Podem, então, ele e Blimunda, comer melhor, com o que ganha de resto, "querendo Deus e o humor do açougueiro".
D. Maria Ana está no fim da gravidez, bojuda "como uma nau da Índia". Holandeses invadem Pernambuco, naus trazem carregamento da China, há lutas no Recife, mas nada disso interessa à rainha que "está flutuando, indiferente, no seu torpor de grávida".
O narrador nos anuncia que "D. João V vai ter de contentar-se com uma menina. Nem sempre se pode ter tudo(...)"
Batizaram a princesa, no dia de Nossa Senhora do Ó , sete bispos e "ficou a chamar-se Maria Xavier Francisca Leonor Bárbara, logo ali com o título de Dona adiante, apesar de tão pequena ainda, está ao colo, baba-se e já é dona(...) Do tio e padrinho, D. Francisco, ganhou uma cruz de brilhantes, pouco, perto do que a mãe recebera do cunhado: brincos de diamantes, de alto valor.
Baltazar e Blimunda foram ver a festa, ele mais cansado, de tanto carregar tanta carne para o banquete; e dói-lhe a mão esquerda, na qual usa o gancho para tais finalidades; Blimunda segura-lhe a mão direita. Frei Antônio morrera pouco antes, sem ter visto o fruto de sua premonição.
Oitavo
"Eu posso olhar por dentro das pessoas."
"Dorme Baltazar no lado direito da enxerga, desde a primeira noite aí dorme, porque é desse lado o seu braço inteiro, e ao voltar-se para Blimunda pode, com ele, cingi-la contra si, correr-lhe os dedos desde a nuca até à cintura, e mais abaixo ainda se os sentidos de um e de outro despertaram no calor do sono e na representação do sonho."
Baltazar acorda sempre cedo, antigo hábito de soldado, e o narrador nos anuncia que o ano mudou já, distante aquele dia em que ambos se conheceram e se amaram pela primeira vez. Todos os dias, antes que nascesse o sol, Blimunda acordava e, antes de abrir os olhos, comia o pão que deixava de propósito no alforje.
Baltazar, hoje, escondera-lhe o pão: "Hoje se saberá.", anuncia o narrador pondo-a diante de nós a buscar e tatear o que o soldado havia escondido. Baltazar avisa a mulher que escondera o pão; ela grita, apavorada, brava:
Não me faças isso, e foi o grito tal que Baltazar a largou, assustado, quase arrependido da violência, Eu não te quero fazer mal, só queria saber que mistérios são, Dá-me o pão, e eu digo-te tudo, Juras, Para que serviriam juras se não bastassem o sim e o não, Aí tens, come, e Baltazar tirou o taleigo de dentro do alforje que lhe servia de travesseira.
Cobrindo o rosto com o antebraço, Blimunda comeu enfim o pão. Mastigava devagar. Quando terminou, deu um grande suspiro a abriu os olhos."
Confessa a ele que "enxerga as pessoas por dentro", caso esteja em jejum, por isso come o pão, mastigando-o vagarosamente antes de abrir os olhos: "Que poder é esse teu, Vejo o que está por dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra, vejo o que está por baixo da pele, e às vezes mesmo o que está por baixo das roupas, mas só vejo quando estou em jejum, perco o dom quando muda o quarto da lua, mas volta logo a seguir, quem me dera que o não tivesse, Por quê, Porque o que a pele esconde nunca é bom de ver-se, Mesmo a alma, já viste a alma, Nunca a vi, Será porque não se possa ver, Será, e agora larga-me, tira a perna de cima de mim, que me quero levantar."
Durante todo o dia, no trabalho, duvidou Baltazar se tivera ou não tal conversa com a mulher que amava, achando que sonhara. À noite, combinaram que , dia seguinte, sairiam cedo, ela na frente, sem comer, ele atrás, sem ser visto por dentro e caminhariam pela cidade. Assim foi. Blimunda indica o lado de dentro das pessoas: uma mulher com uma criança no ventre, mas o bebê tem duas voltas do cordão enrolado no pescoço; vê um um peixe gigante, fossilizado, sob o granito, um frade com suas bichas. E indica-lhe um lugar, onde pede que ele cave com o gancho, à procura da moeda que ali se encontra.
Pede que a leve para casa, não quer mais ver.
Da tença que pediu ao padre Bartolomeu, nada de notícias ainda; e sabe que o mandarão embora do açougue logo que possam se livrar dele; restará, no entanto, a portaria dos conventos onde se oferecem caldos: é difícil morrer de fome em Lisboa.
O infante D. Pedro é nascido e quatro bispos o batizaram.
"Baltazar conta a Blimunda casos da sua guerra, e ela segura-lhe o gancho do braço esquerdo como se a verdadeira mão segurasse, é o que ele está sentindo, a memória da sua pele sentindo a pele de Blimunda."
O rei foi a Mafra escolher onde se construiria o convento prometido.
Nono
"É excelente o gancho para travar uma lâmina de ferro ou
torcer um vime, é infalível o espigão para abrir olhais
no pano de vela, mas as coisas obedecem mal quando
lhes falta a carícia da pele humana(...)"
Blimunda e Sete-Sóis foram trabalhar na quinta do duque de Aveiro, a pedido do padre. Levavam um quase nada como mudança, tão pouco os haveres dos dois; e a moça deixou para sempre o lugar em que nascera, onde viveu Sebastiana Maria de Jesus.
"Descansaram aqui e além no caminho, calados, nem tinham o que dizer, se até uma simples palavra sobra se é a vida que está mudando, muito mais que estarmos nós mudando nele. Quanto à leveza do fardo, assim deveria ser de cada vez, levarem consigo mulher e homem o que têm, e cada um deles ao outro, para não terem de tornar sobre os mesmos passos, é sempre tempo perdido, e basta."
Passam a morar ali; Blimunda cata os bichos do cabelo de Baltazar, mas ele pouco pode ajudá-la: falta-lhe a mão com que mate o inseto. Mas nem sempre o trabalho pode ser completo para Sete-Sóis: "Não é verdade que a mão esquerda não faça falta. Se Deus pode viver. Se Deus pode viver sem ela, é porque é Deus, um homem precisa das duas mãos, uma mão lava a outra, as duas lavam o rosto, quantas vezes já teve Blimunda de vir limpar o sujo que ficou agarrado às costas da mão e doutro modo não sairia, são os desastres da guerra, mínimos estes, porque muitos outros soldados houve que ficaram sem os dois braços, ou as duas pernas, ou as suas partes de homem, e não têm Blimunda para ajudá-los ou por isso mesmo a deixaram de ter. É excelente o gancho para travar uma lâmina de ferro ou torcer um vime, é infalível o espigão para abrir olhais no pano da vela, mas as coisas obedecem mal quando lhes falta a carícia da pele humana(...)"
Uma vez ou outra, levanta-se Blimunda mais cedo, e sem pôr os olhos em Baltazar, vai inspecionar o trabalho da passarola, a ver se descobre bolha de ar entrançada nos escondidos do ferro utilizado. Vai desvendando onde o ferro é frágil e disso gosta o padre: "Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras(...)"
De vez em quando, o padre vem por lá a experimentar para aquelas paredes os sermões que compõem, enquanto Blimunda varre o pátio e Baltazar bate os ferros que compõem a passarola. O padre observa que precisa construir ali uma forja para que possam fundir os ferros.
Anuncia-lhes, ainda, que vai para a Holanda, onde pretende aprender a arte de comandar o éter, o que fará subir a nave até onde queira.
"Deitou o padre Bartolomeu Lourenço a bênção ao soldado e à vidente, eles beijaram-lhe a mão, mas no último momento se abraçaram os três, teve mais força a amizade que o respeito, e o padre disse, Adeus Blimunda, adeus Baltazar, cuidem um do outro e da passarola, que eu voltarei um dia com o que vou buscar(...) " Montou na mula e partiu.
Baltazar e Bliunda despedem-se de Lisboa e vão a uma tourada; na madrugada seguinte,os dois partem para Mafra.
Décimo
"Há muitos modos de se juntar um homem e uma mulher."
Baltazar foi recebido pelo pai e pela mãe, que demonstraram por ele muitas saudades. Contou-lhes a guerra, a mão perdida e apresentou-lhes Blimunda. Tiveram alguma dúvida sobre ela, mas esta contou-lhes a vida, a de sua mãe, negou ser judia e acabou tocando o coração de Marta Maria, a sogra.
A única irmã de Baltazar, Inês Antônia, casara-se com Álvaro Pedreiro e já tinha dois filhos.
Baltazar dispõe-se a arrumar trabalho para si e Blimunda, mas Marta diz que prefere que ela fique, para que possa conhecê-la devagar. Blimunda , ao ver os filhos de Inês, sabe que o mais velho vai morrer de bexigas ( varíola) e que só o mais novo sobrará.
Em Lisboa, a rainha engravida novamente. D. Pedro morrerá e o novo infante será rei "o que daria matéria para outro memorial e outros abalos, e se alguém tiver curiosidade de saber quando equilibrará Deus este nascimento real com um popular nascimento, equilibrará sim, mas não por via destes homens mal conhecidos e destas mulheres por adivinhar, que não quererá Inês Antônia que outros filhos lhe morram, e Blimunda desconfia que possui artes misteriosas para não os ter."
Baltazar ajuda o pai no campo, onde, por força da mão perdida, tem que reaprender cada coisa. Ainda tenta auxiliar o cunhado na construção da quinta dos viscondes de Vilanova e pela primeira vez lhe ocorre que poderia ter perdido uma perna, em vez do braço, seria bem mais fácil, dessa forma, viver. Todos esperam que se inicie a construção do convento, aí, sim, haverá trabalho para todos.
Em Lisboa, o rei anda doente e de vez em quando lhe dão confissão e extrema-unção; vai para Azeitão ver se com mezinhas se curam estas melancolias de que sofre. D. Francisco fica em Lisboa, a tramar a sua vida e a do próprio irmão; pela cabeça dele passam pensamentos esquisitos como casar-se com a cunhada. Por sua vez, D. Maria Ana tem sonhos que considera "fraquezas de mulher guardadas no meu coração e que nem ao confessor confesso."
Confessam-se ambos o amor que nutrem um pelo outro, mas D. João se salvará e nunca mais D. Maria reviverá tais sonhos ou conversas com o cunhado.
Décimo primeiro
"Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram
o mundo na sua órbita."
O padre Bartolomeu regressou da Holanda, não sabemos se trouxe ou não os segredos que buscava. Foi à Quinta de S. Sebastião da Pedreira: três anos inteiros haviam se passado e tudo estava abandonado, o material que trabalhara disperso pelo chão, "ninguém adivinharia o que ali se andara perpetrando." O padre vê rastros de Baltazar, mas não os vê de Blimunda e julga que ela morrera. Depois, parte para Coimbra, não sem antes passar por Mafra, onde vai ver os homens que iniciam o trabalho do Convento.
Procurou por Baltazar e Blimunda, ao pároco, informa que os casara em Lisboa, "(...)contente por assim ter mentido à face de Deus saber que Deus não se importava, um homem tem de saber, por si próprio, quando as mentiras já nascem absolvidas."
Blimunda veio abrir a porta e reconheceu-o pelo vulto, quando desmontava. Beijou-lhe a mão. Marta Maria estranhou que sua nora fosse abrir a porta a quem não batesse ainda. Mais tarde, chegam Baltazar e o pai e aquele, por convivência com Blimunda, ao ver a mula adivinha tratar-se do padre.
Marta Maria, que já desconfiava ter uma "nascida"( tumor) no ventre, lamenta nada ter a oferecer ao padre, nem comida — a não ser o galo -, nem abrigo para passar a noite.
O padre Bartolomeu dorme na casa do pároco e, pela madrugada, chegam Blimunda e Baltazar. Ela sem comer. Bartolomeu os ama, eles sabem:
"No mundo, tenho-te a ti, Blimunda, a ti, Bltazar, estão no Brasil meus pais, em Portugal meus irmãos, portanto pais e irmãos tenho, mas para isto não servem irmãos e pais, amigos se requerem, ouçam então, na Holanda soube o que é o éter, não aquilo que geralmente se julga e ensina, e não se pode alcançar pelas artes da alquimia, para ir buscá-lo lá onde ele está, no céu, teríamos nós de voar e ainda não voamos, mas o éter, dêem agora muita atenção ao que vou dizer-lhes, antes de subir aos ares para ser o onde as estrelas se suspendem e o ar que Deus respira, vive dentro dos homens e das mulheres."
Baltazar pergunta se o éter é a alma e o padre diz que não, que é da vontade dos vivos que ele se compõe. Blimunda espantou-se e o padre pediu que ela o olhasse por dentro. Ela viu uma nuvem escura, à altura do estômago. Era a vontade, diferente da alma, o que faria voar a passarola.
Bartolomeu montou na mula, disse que ia a Coimbra e que , quando retornasse à Lisboa, mandaria avisar os dois para que lá tivessem. Baltazar ofereceu o pão à Blimunda, mas ela pediu, primeiro, pra ver a vontade dos homens que trabalhavam no convento.
Décimo segundo
"(...) na vida, tem cada um sua fábrica, estes ficam aqui a levantar paredes,
nós vamos a tecer vimes, arames e ferros, e também a recolher vontades,
para que com tudo junto nos levantemos, que os homens são anjos nascidos
sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer."
O filho mais velho de Inês Antônia e Álvaro Diogo morreu há três meses, de bexigas. Álvaro tem a promessa de conseguir emprego na construção do convento; Marta Maria sofre de dores terríveis no ventre. João Francisco está infeliz porque o filho partirá novamente para Lisboa, e o convento dará trabalho a muitos homens.
Blimunda foi a missa em jejum e viu que dentro da hóstia também havia a tal nuvem fechada, vontade dos homens...
O padre Bartolomeu de Gusmão escreve de Coimbra e diz ter chegado bem, mas agora viera uma nova carta para que seguissem para Lisboa "tão cedo pudessem". Partiram em dois meses, porque o rei vinha a Mafra inaugurar a obra do convento. Sete-Sóis e Blimunda conseguiram lugar na igreja: "Tocava airoso o órgão, sopravam os músicos entoavam as vozes os cantores, e, cá fora, o povo que não coubera ou estava sujo de mais para entrar, o povo que viera da vila e dos arredores, não admitido no sacro interior, contentava-se com os ecos das antífonas e das salmodias, e assim acabou o primeiro dia." No dia seguinte formou-se a procissão, o rei apareceu. A pedra principal foi benzida; foi tanta a pompa que gastaram-se nisso duzentos mil cruzados.
Partiram Baltazar e Blimunda para Lisboa. A mãe Marta Maria se despede do filho dizendo que não o tornará a ver. Blimunda e Sete-Sóis dormem na estrada:
"De manhã, ainda não nascera o sol, levantaram-se. Blimunda já comeu o pão. Dobrou a manta, era apenas uma mulher repetindo um gesto antigo, abrindo e fechando os braços, segurando debaixo do queixo as dobras feitas, depois descendo as mãos ao centro do seu próprio corpo e aí fazendo a dobra final, quem para ela olhasse não diria que tem estranhos poderes de ver, que, se esta noite estivesse fora do seu corpo, a si se veria debaixo de Baltazar, em verdade, de Blimunda se pode afirmar que vê os seus próprios olhos vendo."
Por fim, chegaram à quinta onde esperariam o padre voador. Mal chegaram, choveu.
Décimo terceiro
"São ditos de maneta e visionária, ele porque lhe falta,
ela porque lhe sobra."
Os arames e os ferros enferrujaram-se e os panos da passarola cobrem-se de mofo; o vime, ressequido, destrança-se: "obra que em meio ficou não precisa envelhecer para ser ruína." Baltazar experimenta os ferros, tudo perdido, melhor começar outra vez.
Enquanto o padre não chega, constrói-se a forja, vai-se a um ferreiro e vê como se faz o fole.
Quando Bartolomeu de Gusmão chegou e viu o fole pronto, peça por peça desenhada e feita por Sete-Sóis, ficou contente e disse: "Um dia voarão os filhos do homem."
Encomendou a Blimunda duas mil vontades dos homens e mulheres que morreriam a fim de que, junto com âmbar e ímãs, pudessem fazer subir a nau que agora construíam: "(...) mas as vontades são, de tudo, o mais importante, sem elas não nos deixaria subir a terra"
O padre distribui tarefas, indica a Sete-Sóis onde comprar ferro, vime e peles para os foles, pede segredo absoluto de tudo o que estão a fazer. "Tornou o padre aos estudos, já bacharel, já licenciado, doutor não tarde, enquanto Baltazar chega os ferros à forja e os tempera na água, enquanto Blimunda raspa as peles trazidas do açougue, enquanto ambos cortam o vime e trabalham à bigorna."
Trabalham na passarola quase um ano inteiro, procissões passam em delírio pelas ruas, povo misturado ao clero, clero misturado aos nobres.
Décimo quarto
"Tendes razão, disse o padre, mas, desse modo, não está o homem livre
de julgar abraçar a verdade e achar-se cingido com o erro, Como livre
também não está de supor abraçar o erro e encontrar-se cingido com a
verdade."
"Então, ao homem nada é impossível."
O padre Bartolomeu Lourenço voltou a Coimbra já doutor em cânones, e agora pode ser visto na casa de uma viúva. D. João manda vir da itália o maestro barroco Domênico Scarlatti, a fim de dar lições de música a sua filha, a infanta D. Maria Bárbara. Maestro e padre tornam-se amigos, comungando as mesmas idéias e sonhos. Confiante no amigo, o padre leva-o a S. Sebastião da Pedreira:
"No dia seguinte, cavalgou cada um a sua mula e foram a S. Sebastião da Pedreira. Entre o palácio, de um lado, e o celeiro e a abegoaria, do outro, o pátio apresentava-se varrido. Corria água numa caleira, ouvia-se girar uma nora. Os canteiros próximos estavam cultivados, as árvores de fruto tinham sido limpas e podadas, à vista nada havia que pudesse lembrar a brava selva de há dez anos, quando pela primeira vez Baltazar e Blimunda aqui entraram. Lá para diante, a quinta continua inculta, por força assim tem de ser, se para trabalhar a terra só há três mãos, e essas ocupadas, grande parte do tempo, em obra que da terra não é. De dentro da abegoaria, portas abertas, vêm rumores de oficina."
Padre Bartolomeu apresenta os amigos e a passarola a Scarlatti. Blimunda chega da horta trazendo "brincos de cereja", a fim de brincar com Baltazar. Quando os viu, o músico pensou: Vênus e Vulcano... É bom você se lembrar disso também: o mito que rege o livro é exatamente este: Vênus e Vulcano, a deusa da beleza e o feio e desengonçado, manco Vulcano, filho feito somente por Hera, a quem horrorizou o nascimento de filho tão feio... "Perdoemos-lhe a óbvia comparação clássica, sabe ele lá como é o corpo de Blimunda debaixo das roupas grosseiras que veste, e Baltazar não é apenas o tição negro que parece, além de não ser coco como foi Vulcano, maneta sim, mas isso também Deus é. Sem falar que a Vênus cantariam todos os galos do mundo se tivesse os olhos que Blimunda tem, veria facilmente nos corações amantes, em alguma coisa há-de um simples mortal prevalecer sobre as divindades. E sem contar que sobre Vulcano também Baltazar ganha, porque se o deus perdeu a deusa, este homem não perderá a mulher."
Veja agora que metonímias ( parte pelo todo) aparecerão encadeadas neste trecho:
"Sentaram-se todos em redor da merenda, metendo a mão no cesto, à vez, se não outro resguardar de conveniências que não atropelar os dedos dos outros, agora o cepo que é a mão de Baltazar, cascosa como um tronco de oliveira, depois a mão eclesiástica e macia do padre Bartolomeu Lourenço, a mão exata de Scarlatti, enfim Blimunda, mão discreta e maltratada, com as unhas sujas de quem veio da horta e andou a sachar antes de apanhar as cerejas. Todos eles atiram os caroços para o chão, el-rei se estivesse aqui faria o mesmo, e por pequenas coisas assim que se v6e serem os homens realmente iguais."
O padre diz a Scarlatti que ele e Baltazar têm, ambos, 35 anos e que não poderiam ser pai e filho, mas poderiam ser irmãos; portanto, desde o
começo da história, o tempo que se passou pode ser contado: nove anos.
Mostrada a passarola por dentro, retira-se o músico, mas promete voltar e trazer o cravo, que tocará enquanto Blimunda e Baltazar trabalham. O padre lá permaneceu, onde treinou seu sermão para que os dois ouvissem. Discutem sobre Deus uno, trino: "Deus não fica no homem quando quer, mas quando o homem o deseja tomar."
Blimunda adormeceu, com a cabeça apoiada no ombro de Baltazar; um pouco mais tarde ele a levou para dormir. O padre saiu para o pátio, e toda a noite ali permaneceu, tomado por tentações.
Décimo quinto
"A música é outra coisa."
Domênico Sacarlatti trouxe seu cravo para a abegoaria, por conta de dois carregadores que o trouxeram apenas até o portão, impedidos de ver a passarola ou desconfiar dela. Chegou o maestro nessa tarde e o afinou porque os homens tinham-no trazido sem cuidados pela estrada.
"Ao fim de uma hora levantou-se Scarlatti do cravo, cobriu-o com um pano de vela, e depois disse para Baltazar e Blimunda, que tinham interrompido o trabalho, Se a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão chegar a voar um dia, gostaria de ir nela e tocar no céu, e Blimunda respondeu, Voando a máquina, todo o céu será música, e Baltazar , lembrando-se da guerra, Se não for inferno todo o céu."
Muitas vezes voltou o maestro à quinta e pedia que não parassem o trabalho; ali, em meio aos ruídos e grandes barulhos, confusão, tocava seu cravo.
Há um surto de varíola em Lisboa, oriundo de uma nau vinda do Brasil. O padre pede à Blimunda que vá à cidade e recolha as vontades das pessoas. É assim que ela, em jejum, um dia inteiro se põe a recolher tais vontades. Um mês depois , são mais de mil vontades presas ao frasco em que Blimunda as recolhia.; e quando a epidemia terminou, ela havia aprisionado duas mil vontades.
Foi então que Blimunda caiu doente. Nada a curava da extrema magreza; mas um dia, Scarlatti pôs a tocar e ela abriu os olhos e chorou. O maestro veio , então, todos os dias, havendo chuva ou sol; e a saúde de Blimunda voltou depressa.
Um dia , Baltazar e Blimunda vão à Lisboa e encontram Bartolomeu doente, magro e pálido. Parecia ter medo de algo.
Décimo sexto
"Bem sabem que, querendo o Santo Ofício, são más todas as razões boas."
O duque de Aveiro está por voltar , Blimunda e Sete-Sóis querem saber que destino darão às suas vidas. Morre o Infante D. Miguel por salvar D. Francisco, dizem que o reino está mal governado.
"Mas o padre anda inquieto, dir-se-ia que não crê no que diz, ou tem o que diz tão pouco valor que não lhe alivia outras inquietações, por isso Blimunda pergunta, em voz muito baixa, é noite, a forja está apagada, a máquina ali continua, mas parece ausente, Padre Bartolomeu Lourenço, de que é que tem medo, e o padre, assim interpelado diretamente, estremece, levanta-se agitado, vai até à porta, olha para fora, e, tendo voltado, responde em voz baixa, Do Santo Ofício. Entreolharam-se Baltazar e Blimunda, e ele disse, Não é pecado, que eu saiba, nem heresia, querer voar, ainda há quinze anos voou um balão no paço e daí não veio mal, Um balão é nada, respondeu o padre, voe agora a máquina e talvez o Santo Ofício considere que há arte demoníaca nesse vôo, e quando quiserem saber que partes fazem navegar a máquina pelos ares, não poderei responder-lhes que estão vontades humanas dentro das esferas, para o Santo Ofício não há vontades, há só almas, dirão que as mantemos presas, a almas cristãs, e as impedimos de subir ao paraíso."
Blimunda diz ao padre saber que o Santo Ofício se aproxima dele e Bartolomeu fica com medo de que o acusem de haver se convertido ao judaísmo ( isso realmente aconteceu na história real de Bartolomeu Lourenço de Gusmão), que se entrega a feitiçarias. Presos à quinta, os dois vêem passar os meses; um dia, ouvem a mula do padre bater os cascos nas pedras:
"O padre Bartolomeu Lourenço entrou violentamente na abegoaria, vinha pálido, lívido, cor de cinza, como um ressuscitado que já fosse apodrecendo. Temos de fugir, o Santo Ofício anda à minha procura, querem prender-me, onde estão os frascos. Blimunda abriu a arca, retirou umas roupas, Estào aqui, e Baltazar perguntou, Que vamos fazer. O padre tremia todo, mal podia sustentar-se de pé, Blimunda amparou-o, Que faremos, repetiu, e ele gritou, Vamos fugir na máquina, depois, como subitamente assustado, murmurou quase inaudivelmente, apontando a passarola, Vamos fugir nela, Para onde, Não sei, o que é preciso é fugir daqui. Baltazar e Blimunda olharam-se demoradamente, Estava escrito, disse ele, Vamos, disse ela."
Eram duas horas da tarde e havia muito trabalho a fazer, não poderiam mais perder sequer um minuto. retiraram as telhas, colocaram as bolas de âmbar nos cruzamentos dos arames, abriram as velas superiores. Blimunda está calma, como se em toda a sua vida nada mais tivesse feito senão voar. Às quatro horas está tudo pronto; o cravo ficará lá, a fim de despertar a curiosidade dos inquisidores.
"Agora, sim, podem partir. O padre bartolomeu Lourenço olha o espaço celeste descoberto, sem nuvens, o sol que parece uma custódia de ouro, depois Baltazar que segura a corda com que se fecharão as velas, depois Blimunda, prouvera que adivinhassem os seus olhos o futuro, Encomendemo-nos ao Deus que houver, disse-o num murmúrio, e outra vez num sussurro estrangulado, Puxa, Baltazar, não o fez logo Baltazar, tremeu-lhe a mão, que isto será como dizer Fiat, diz-se e aparece feito, o quê, puxa-se e mudamos de lugar, para onde. Blimunda aproximou-se, pôs as duas mãos sobre a mão de Baltazar, e, num só movimento, como se só desta maneira devesse ser, ambos puxaram a corda. A vela correu toda para um lado, o sol bateu em cheio nas bolas de âmbar, e agora, que vai ser de nós."
Subiu a passarola. Baltazar e Blimunda foram lançados ao chão, Bartolomeu controlou-a e chamou os dois:
"Por obra da mão direita de Baltazar, aqui te levo, Deus, um que também não tem a mão esquerda, Blimunda, Baltasar, venham ver, levantem-se daí, não tenham medo."
Já não tinham medo de nada, ela e Baltazar. Quando Sete-Sóis viu que voavam tão belamente, pôs-se a chorar; aquele homem tão forte, que já estivera na guerra e já matara um homem com seu espigão, chorava agora de felicidade. Abraçaram-se os três
e ainda tiveram tempo de ver, do alto, os homens que os perseguiam. Nada foi achado na quinta a não ser vestígios, nem o cravo se achou porque Scarlatti, indo visitar a quinta, viu quando os três fugiam às pressas na passarola. Entrando, deu fim ao cravo, jogando-o no poço.
Quando, finalmente, passam por sobre Mafra, velejam sobre as obras do convento e as pessoas, tantas, julgam ter visto ali, naquela hora, passar sobre eles o Espírito Santo. A máquina pousara, o padre, falando a pessoas invisíveis, parece ter enlouquecido. Quando ambos dormem, o padre tenta atear fogo à máquina , mas Baltazar e Blimunda, sacudidos do sonho, salvam a passarola.
Ao amanhecer, dão pelo desaparecimento de Bartolomeu de Gusmão. Fingindo vir de Lisboa, chegam a Mafra. Ouvem os homens estarrecidos contarem sobre a passagem do Espírito Santo sobre o convento.
Décimo sétimo
Num tempo em que sucedem tantos prodígios, Blimunda e Sete-Sóis não podem comentar que voaram porque estariam perdidos. Estavam todos na casa dos pais de Baltazar, o pai estava triste pela morte da mãe, mas Inês Antônia contou-lhes, maravilhada, os prodígios do Espírito Santo.
Na manhã seguinte, Baltazar sai de casa com o cunhado e vai em busca do emprego na obra da construção do convento. A Mafra, chegam notícias de que Lisboa sofreu um terremoto, não muito danoso, apenas caíram beirais:
"Passam mais de dois meses que Baltazar e Blimunda chegaram a Mafra e cá vivem. Em um dia santo, parado o trabalho na obra, fez Baltazar uma jornada e foi ao Monte Junto ver a máquina de voar. Estava no mesmo sítio, na mesma posição, descaída para um lado e apoiada na asa, debaixo de uma cobertura de ramagens já secas."
Cuida dela , esconde-a melhor. Dois meses mais tarde, vê Blimunda que, como sempre, vem esperá-lo no caminho. Ao vê-la toda trêmula e nervosa, presume que o pai está doente, mas não. Blimunda lhe conta que Scarlatti está na casa do visconde. No outro dia, desconfiada de que ele viera delatá-los, rondou o palácio. Scarlatti tinha feito um pedido ao rei para que pudesse pôr os olhos sobre a construção do convento e o visconde o hospedara, apesar de não gostar de música.
Mas encontram-se, e se falam: "Vim te dizer e a Baltazar, que o padre Bartolomeu de Gusmão morreu em Toledo, que é em Espanha, para onde tinha fugido, dizem que louco, e como não se falava de ti nem de Baltazar, resolvi vir a Mafra saber se estavam vivos. Blimunda juntou as mãos, não como se rezasse, mas como quem estrangula os próprios dedos, Morreu, Foi essa a notícia que chegou a Lisboa, Na noite em que a máquina caiu na serra, o padre Bartolomeu Lourenço fugiu de nós e nunca mais voltou."
No dia seguinte, o música vai embora, mas no caminho esperam-no , para se despedirem, Baltazar e Blimunda. Scarlatti vai triste.
Décimo oitavo
"De Portugal não se requeira mais que pedra, tijolo e lenha
para queimar, e homens para a força bruta, ciência pouca."
O reino português vai cada vez melhor: diamantes, especiarias, impostos, milhões de cruzados se arrecadam. D. João V pensa o que fazer com tanto dinheiro, mas conclui que deve ser a alma a primeira a ser cuidada. Em Mafra, continua a construção do convento.
"É sabido que Baltazar vai beber, mas não se embriagará. Bebe desde que soube da morte do padre Bartolomeu Lourenço, triste morte, foi um abalo muito grande, como um terremoto profundo que lhe tivesse rachados os alicerces, deixando embora, à superfície, as paredes aprumadas. Bebe porque constantemente se lembra da passarola, lá na serra do Barregudo, numa encosta do Monte Junto, quem sabe se jé encontrada por contrabandistas ou pastores, e só de pensar nisso sofre como se o estivessem a apertar no potro. Mas bebendo, sempre chega o momento em que sente pousar sobre o seu ombro a mão de Blimunda, não é preciso mais nada, está Blimunda sossegada em casa, Baltazar pega o púcaro cheio de vinho, julga que vai beber como bebeu os outros, mas a mão toca-lhe no ombro"
Neste capítulo, Baltazar está rodeado pelos amigos que contam histórias; o narrador transfere a cada um deles a narrativa:
"O meu nome é Francisco Marques, nasci em Cheleiros, que é aqui perto de Mafra, umas duas léguas..."
"O meu nome é João pequeno, não tenho pai..."
"Chamo-me Joaquim da Rocha, nasci no termo do Pombal..."
"O meu nome é Manuel Milho, venho dos campos de Santarém..."
"O meu nome é João Anes, vim do Porto e sou tanoeiro..."
"O meu nome é Julião Mau-Tempo, sou natural do Alentejo..."
Cada um deles conta, em primeira pessoa, a sua história de família, destino e expectativas, e cada um deles é narrador em foco cambiante.
Décimo nono
" Tivessem morrido que iam logo direitos ao paraíso."
Durante muitos meses, Baltazar havia puxado e empurrado carros de mão, até que um dia, com a promoção e ajuda de João Pequeno, começou a puxar uma junta de bois, fazendo companhia ao amigo corcunda. Se lá podia funcionar como boieiro um aleijado, podiam, então, ir dois.
"Estava Baltazar há pouco tempo nesta sua nova vida, quando houve notícia de que era preciso ir a Pero Pinheiro buscar uma pedra muito grande que lá estava, destinada à varanda que ficará sobre o pórtico da igreja, tão excessiva a tal pedra que foram calculadas em duzentas as juntas de bois necessárias para trazê-la, e muitos os homens que tinham de ir também para as ajudas. Em Pero Pinheiro se construíra o carro que haveria de carregar o calhau, espécie de nau da Índia com rodas, isto dizia quem já o tinha visto em acabamentos e igualmente pusera os olhos, alguma vez, na nau da comparação. Exagero será, decerto, melhor é julgarmos pelos nossos prórpios olhos, com todos estes homens que se estão levantando noite ainda e vão partir para Pero Pinheiro, eles e os quatrocentos bois, e mais de vinte carros que levam os petrechos para a condução, convém a saber, cordas e calabres, cunhas, alavancas, rodas sobressalentes feitas pela medida das outras, eixos para o caso de se partirem alguns dos primitivos."
Quando amanhece, logo que o dia nasceu, em meio ao calor de Junho, os homens saem a cumprir três léguas até o lugar onde está a pedra. Pelo tamanho, tal pedra espanta a todos que confessam nunca ter visto coisa igual na vida. Todos se dispuseram a cavar, a achar caminho, maneira ou jeito de levá-la a Mafra sem que quebrasse. O narrador lembra Arquimedes: "Dêem-me um ponto de apoio para vocês levantarem o mundo", parodia.
Puxada a braço, lá vinha a pedra, em meio a um grande alarido das pessoas; depois, como que transportado para a guerra, Baltazar viu, num átimo de segundo, um esguiço de sangue: um homem se ferira, mas os esforço continuam.
É extenuante ler o capítulo, pleno de descrições dos esforços para que tal pedra fosse removida: no primeiro dia, não avançaram mais do que quinhentos passos. Os homens dormem quando anoitece, alguns contam histórias sobre reis e rainhas.
"O dia seguinte foi de grandes aflições. (...) Mas a aflição tornava-se agonia se o caminho era descer. A todo o momento o carro se escapava, era preciso meter-lhe logo os calços, desatrelar as juntas quase todas" Continuam as histórias contadas pelos homens, história sem pé nem cabeça, meninas com estrelas na testa, princesa que guardava patos.
Francisco Marques, distraído, foi atropelado e morto pelo carro, a roda passou sobre o ventre, que ficou uma pasta de vísceras e ossos. Depois, ao chegarem ao fundo do vale, a plataforma desandou e atingiu dois animais: foi preciso que os matassem.
"Dormiram ainda outra noite no caminho. Entre Pero Pinheiro e Mafra gastaram oito dias completos. Quando entraram no terreiro, foi como se estivessem chegando duma guerra perdida, sujos, esfarrapados, sem riquezas. Toda a gente se admirava com o tamanho desmedido da pedra, Tão grande. Mas Baltazar murmurou, olhando a basílica, Tão pequena."
Vigésimo
"Jamais se diga aconteça o que acontecer, porque podem sempre
primeiro acontecer coisas com que não contávamos quando dissemos
aconteça o que acontecer."
Baltazar tinha ido seis ou sete vezes ao Monte Junto, a fim de ver a passarola, remediar-lhe os estragos que o tempo ia causando nela; como se se enferrujassem as lâminas de ferro, levou para lá uma panela de sebo e untou cuidadosamente as juntas, "renovando a operação de cada vez que lá voltava. também se habituara a transportar às costas um molho de vimes, que cortava numa terra meio alagadiça que lhe ficava em viagem, e com eles remendava as falhas e os rasgões do entrançado, nem sempre de causa natural, como quando encontrara dentro da carcaça da passarola uma toca com seis raposinhos."
Pela primeira vez em três anos, Blimunda diz que quer ir junto para aprender o caminho: "(...) vais-te cansar, Quero conhecer o caminho, se alguma vez tiver de ir lá sem ti. Era uma boa razão, ainda que Baltazar não esquecesse a probabilidade do lobo, Aconteça o que acontecer, não vás nunca sozinha, os caminhos são ruins, o sítio ermo, se ainda te lembras, e não estás livres de que te assaltem feras, e Blimunda respondeu, Jamais se diga aconteça o que acontecer, porque sempre podem primeiro acontecer coisas com que não contávamos quando dissemos aconteça o que acontecer."
Baltazar não quis que Blimunda caminhasse a pé e alugou um burro para a jornada que fariam. Inês Antônia preocupa-se e pergunta para aonde vão, mas Baltazar só diz ao pai, que Inês julga prestes a morrer. Conta-lhe o segredo, diz que o Espírito Santo era a passarola do padre, que vão ambos ao Monte Junto, na serra do Barregudo, a cuidar da nave. O pai acredita nele e o tranquiliza: "eu ainda não estou para morrer, quando chegar a ocasião, serei contigo onde estiveres."
No caminho, cortou os vimes, colheu lírios d'água para Blimunda que fez deles uma guirlanda para enfeitar o burro. O tempo é de Primavera e as flores cobrem o campo, e Blimunda toma nota do caminho para, se precisar, reconhecê-lo depois, quando sozinha. Chegaram ao monte; Baltazar trabalhou, ferindo-se na mão. Tudo está em estado de decomposição; enquanto ela cosia as velas, ele azeitava as engrenagens. Dormiram depois de se procurarem cheios de amor um pelo outro e, ao amanhecer, sem olhar seu homem por dentro, Blimunda foi olhar as esferas e viu dentro delas as vontades presas. Comeu pão, Baltazar acordou e fizeram amor novamente.
Pelo meio da manhã, acabaram o trabalho: por serem dois, a máquina estava como que renovada e se foram para Mafra outra vez.
Morreu o pai de Baltazar, João Francisco: "João Francisco deixou um quintal e uma casa velha. Tinha um cerrado no alto da Vela. Levou anos a limpá-lo das pedras até que a enxada pudesse cavar em terra fofa. Não valeu a pena, as pedras já lá estão outra vez, afinal para que vem um homem a este mundo."
Vigésimo primeiro
"A obra é longa, a vida é curta."
"Um homem nunca sabe quando a guerra acaba."
D. João V continua a montar e desmontar a basílica de S. Pedro, "um lugar de fingimento onde nunca serão rezadas missas verdadeiras, embora Deus esteja em todo o lado." E mandou chamar o arquiteto de Mafra, um tal João Frederico Ludovice, a fim de pedir-lhe que construísse em Portugal uma basílica igual ao do Vaticano.
O arquiteto concordou, mas achou-o néscio porque a obra exterior poderia ser a mesma, mas teria ele, o rei, que fazer nascer um pintor como Rafael, um Sangallo, um Peruzzi , para a fazer valer algo. E acrescentou:
"A vontade de vossa majestade é digna do grande rei que mandou edificar Mafra, porém as vidas são breves, majestade, e S. Pedro, entre a bênção da primeira pedra e a consagração, consumiu cento e vinte anos de trabalhos e riquezas, vossa majestade, que eu saiba, nunca lá esteve, julga pelo modelo de armar que aí tem, talvez nem daqui a duzentos e quarenta anos o conseguíssemos, estaria vossa majestade morta, mortos estariam vossos filhos, neto, bisneto, trineto e tetraneto, o que eu pergunto, com todo o respeito, se é que vale a pena estar a construir uma basílica que só ficará terminada no ano dois mil, supondo que nessa altura ainda há mundo, no entanto vossa majestade decidirá."
Inconsolável, melancólico, o rei resolve, então, ampliar o convento de Mafra e se reúne, no dia seguinte, com o provincial dos franciscanos que, ouvindo tão boa notícia, "o provincial, que ali fora sem ainda saber da novidade, derrubou-se no chão dramaticamente, beijou com abundância as mãos da majestade, e enfim declarou, com a voz estrangulada, Senhor, ficai seguro de que neste mesmo momento está Deus mandando preparar novos e mais suntuosos aposentos no seu paraíso para premiar quem na terra o engrandece e louva em pedras vivas, ficai seguro de que por cada tijolo que for colocado no convento de Mafra, uma oração será dita em vossa intenção, não pela salvação da alma, que vos está garantidíssima pelas obras(...)"
Assim que saíram o provincial e o arquiteto, mandou D. João V vir à sua presença o guarda-livros:
"Então diz-me lá como estamos de dever e haver. O guarda-livros leva a mão ao queixo parecendo que vai entrar em meditação profunda, abre um dos livros como para citar uma decisiva verba, mas emenda ambos os movimentos e contenta-se com dizer, Saiba vossa majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, devemos cada vez mais(...) Se vossa majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas, graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade, Ah, ah, ah, riu o rei, essa tem muita graça, sim senhor, queres tu dizer na tua que a merda é dinheiro, Não majestade, é o dinheiro que é merda, e eu estou em muito boa posição para o saber, de cócoras, que é como sempre deve estar quem faz as contas do dinheiro dos outros. Este diálogo é falso, apócrifo, calunioso, e também profundamente imoral, não respeita o trono e nem o altar(...)"
E dobra o rei o salário do guarda-livros.
A Mafra, manda o rei um vedor, doutor Leandro de Melo, para que encontre João Frederico Ludovice e lhe entregue uma carta. O engenheiro beija o selo real e empalidece: não bastava o que havia combinado com o rei e este já lhe envia outro aumento para o prédio, quer agora um novo corpo da construção, que abrigue trezentos frades e que se arrase logo o monte por detrás da obra e tudo o que ao redor dela está.
O rei escreveu a Baltazar e João Pequeno, dizendo: "Tenham lá paciência, veio-me esta idéia de pôr aí trezentos fardes em vez dos oitenta combinados, por outra parte é bom para todos quantos trabalham na obra, ficam com o emprego garantido por mais tempo, que o dinheiro, ainda há dias mo disse o meu almoxarife, que é de confiança, esse não falta, fiquem sabendo que somos a nação mais rica da Europa, não devemos nada a ninguém e pagamos a todos, e com isso não enfado mais, dá lembranças aos meus queridos trinta mil portugueses que aí andam a fazer a vida, tanto se esforçando por dar ao seu rei o supremo gosto de ver alçado aos ares e tempos o maior e mais formoso monumento sacro da história, que até me disseram já que comparado com isso S. Pedro de Roma é uma capela, adeus, até qualquer dia, saudades à Blimunda, da máquina voadora do padre Bartomeu Lourenço é que nunca mais soube nada, tanta proteção lhe dei, tanto dinheiro gasto, o mundo anda cheio de gente ingrata, agora é que é certo, adeus."
Então , o rei sabia de tudo...
Baltazar pensa em responder, tem vergonha, mas pensa no seu rei.
Sabedor de que poderia morrer sem ver o convento inaugurado, D. João V dá uma ordem ao corregedor: buscar e intimar todos os homens de Lisboa, quiça de Portugal, para que fossem todos trabalhar em Mafra.
Atenção para o trecho que você vai ler e que se parece com a despedida dos parentes, na Praia do Restelo, por ocasião da saída das naus de Vasco da Gama para as Índias:
"Maldito sejas até à quinta geração, de lepra se te cubra o corpo todo, puta vejas a tua mãe, puta a tua mulher, puta a tua filha, empalado sejas do cu até à boca, maldito, maldito, maldito. Já vai andando a récua dos homens de Arganail, acompanham-nos até fora da vila as infelizes, que vão clamando, qual em cabelo, Ó doce e amado esposo, e outra protestando, Ó filho, a quem eu tinha só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice minha, não se acabavam as lamentações, tanto que os montes de mais perto respondiam, quase movidos de alta piedade, enfim já os levados se afastam, vão sumir-se na volta do caminho, rasos de lágrimas os olhos, em bagadas caindo aos mais sensíveis, e então uma grande voz se levanta, é um labrego de tanta idade já que não o quiseram, e grita subido a um valado, que é púlpito dos rústicos, Ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame, ó Pátria sem justiça, e tendo assim clamado, veio dar-lhe um quadrilheiro uma cacetada na cabeça, que ali mesmo o deixou morto."
De todo Portugal chegam homens e são escolhidos um a um.
Vigésimo segundo
"Provado está que Deus ama muito as suas criaturas."
A Infanta Maria Bárbara casa-se com Fernando da Espanha. Esta é a marca do tempo narrativo de Saramago: os fatos históricos.
"Maria Bárbara tem dezessete anos feitos, cara de lua cheia, bexigosa como foi dito, mas como é uma boa rapariga, musical a quanto pode chegar uma princesa, pelo menos não caíram em cesto roto as lições do seu mestre Domênico Scarlatti, que com ela seguirá para Madrid, donde não volta."
O noivo tem dois anos a menos que ela, e nunca será rei, pois é o sexto na linha sucessória.
Domênico Scarlatti toca seu cravo para uma multidão de ignorantes, por ocasião do casamento da Infanta Dona Maria Bárbara, na fronteira com a Espanha.
"Que é isso, perguntou uma mulher ao lado de João Elvas, e o velho respondeu, Não sei, alguém que está a tocar para divertimento das majestades e altezas, se estivesse aqui o meu fidalgo perguntava-lhe, ele sabe tudo, é lá deles. Acabará a música, todos irão aonde têm de ir, corre sossegadamente o rio Caia, de bandeiras não resta um fio, de tambores um rufo, e João Elvas nunca chegará a saber que ouviu Domênico Scarlatti tocando no seu cravo."
Vigésimo terceiro
"Os caminhos são muitos, mas às vezes repetem-se."
"Nem pareces o mesmo homem."
Neste capítulo, o narrador fala da procissão que levará os santos para serem colocados nos altares do convento de Mafra: S. Francisco, Santa Teresa, Santa Clara, S. Vicente, S. Sebastião e Santa Isabel, "Se este é o lugar que realmente melhor conviria a S. Francisco, por ser, de todos os santos que vão nesta leva, o de mais feminis virtudes, de coração manso e alegre vontade, também em lugar certo vêm S. Domingos e Santo Inácio, ambos ibéricos e sombrios, logo demoníacos, se não é isto ofender o demônio, se não seria justo, afinal dizer que só um santo seria capaz de inventar a inquisição e outro santo a modelação das almas. É evidente , para quem conheça estas polícias, que S. Francisco vai sob suspeita."
Seguem também para Mafra frei Manuel da Cruz e seus noviços, trinta, e ali , quando chegam cansados, são recebidos em triunfo.
Baltazar vai para casa, o narrador nos anuncia que ele está velho:
"Baltazar não tem espelhos, a não ser estes nossos olhos que o estão vendo a descer o caminho lamacento para a vila, e els são que lhe dizem, Tens a barba cheia de brancas, Baltazar, tens a testa carregada de rugas, Baltazar, tens encorreado o pescoço, Baltazar, já te descaem os ombros, Baltazar, nem pareces o mesmo homem, Baltazar, mas isto é certamente defeito dos olhos que usamos, porque aí vem justamente uma mulher, e onde nós víamos um homem velho, vê ela um homem novo, o soldado a quem ela perguntou um dia, Que nome é o seu, ou nem sequer a esse vê, apenas a este homem que desce, sujo, canoso e maneta, Sete-Sóis de alcunha, se a merece tanta canseira, mas é um constante sol para esta mulher, não por sempre brilhar, mas por existir tanto, escondido nas nuvens, tapado de eclipses, mas vivo, Santo Deus, e abre-lhe os braços, quem, abre-os ele a ela, abre-os ela a ele, ambos, são o escândalo da vila de Mafra, agarrarem-se assim um ao outro na praça pública, e com a idade de sobra, talvez seja porque nunca tiveram filhos, talvez porque se vejam mais novos do que são, pobres cegos, ou porventuras serão estes os únicos seres humanos que como são se vêem, é esse o modo mais difícil de ver, agora que eles estão juntos até os nossos olhos foram capazes de perceber que se tornaram belos."
Depois da ceia, quando todos dormem, Baltazar leva Blimunda para ver as estátuas; juntos, vêem a lua nascer enorme, vermelha. Ele anuncia que vai ao Monte junto na manhã seguinte, ver como está a passarola. Ela pede cuidados, ele responde que ela fique sossegada, que seu dia ainda não chegou.
Olham os santos inertes, o que seria aquilo? Morte, santidade ou condenação?
Quando amanheceu, Blimunda se levantou e pegou a comida para o farnel do marido que ia ao Monte Junto, acompanhou-o até fora da vila: "Adeus, Blimunda, Adeus Baltazar."
E se separam.
Ao chegar ao lugar onde está a passarola, Baltazar come as sardinhas que lhe pusera a mulher no alforje: havia tanto trabalho a fazer.
"Ia distraído, não reparou onde punha os pés, de repente duas tábuas cederam, rebentaram, afundaram-se. Esbracejou violentamente para se amparar, evitar a queda, o gancho do braço foi enfiar-se na argola que servia para afastar as velas, e, de golpe, suspenso em todo o seu peso, Baltazar viu os panos arredarem-se para o lado com estrondo, o sol inundou a máquina, brilharam as bolas de âmbar e as esferas. A máquina rodopiou duas vezes, despedaçou, rasgou os arbustos que a envolviam, e subiu. Não se via uma nuvem no céu."
Vigésimo quarto
"Não houve resposta, nem podia havê-la, um grito não é nada."
Baltazar não voltou para casa, o que fez Blimunda não dormir aquela noite. Esperara que ele voltasse ao cair do dia, haveria os festejos da sagração da basílica, mas ele não voltara.
Em jejum, olhando as pessoas que passavam para a festa, estava sentada numa vala e ali ficou, vendo o que os seres carregavam por dentro; recebendo xingamentos, dizendo outros. Voltou para casa, ceou com os cunhados e o sobrinho. Também não dormirá.
O rei virá a Mafra e Blimunda não o verá; vai esperar Baltazar pelos caminhos, desesperadamente tentando encontrá-lo:
"Parou para descansar, porque lhe tremiam as pernas, fatigadas do caminho, amolecidas do imaginário contato, mas de repente entrou-lhe no coração o convencimento de que vai encontrar lá em cima Baltazar, trabalhando e suando, talvez atando os últimos nós, talvez lançando para cima do ombro o alforje, talvez já descendo para o vale, por causa disto gritou, Baltazar."
Grita inúmeras vezes por ele:
"Ali é o lugar, como o ninho de uma grande ave que levantou vôo. O grito de Blimunda, terceiro, e sempre o mesmo nome, não foi agudo, apenas uma explosão sufocada, como se as tripas lhe estivessem sendo arrancadas por gigantesca mão, Baltazar, e ao dizê-lo compreendeu que desde o princípio soubera que viria encontrar deserto este lugar."
Viu os arbustos arrancados, a depressão que o peso da máquina fizera no chão e o alforje de Baltazar. Procurou por todo lado, os pés sangrando nos espinhos. Começou a subir ao cume do monte, a fim de poder ver tudo ao redor. Mas no caminho estacou, à sua frente caminhava um frade dominicano, corpulento, a quem perguntou pelo seu homem, faltava-lhe a mão esquerda, não o tinha visto? Viera cá por ouvir dizer que aqui habitava um enorme pássaro...
O frade aconselha-a a procurar abrigo, vai anoitecer, poderia dormir ali, nas ruínas do mosteiro. Sentada à beira do caminho, o cabelo desgrenhado, vazia do homem que ama, Blimunda chora e pensa em Baltazar, se morto, se vivo. Depois vai se refugiar nas ruínas onde o frade a busca tentando saciar seus instintos. Mas Blimunda o mata com o espigão de Baltazar. E depois , arrancando o espigão que se fincara entre as costelas do frei, pôs novamente a andar.
"Toda a noite Blimunda andou. Precisava estar muito longe do Monte Junto quando a madrugada apontasse, quando a congregação se reunisse para as primeiras orações. Davam pela falta do frade, começariam por buscá-lo na cela, depois por todo o convento, no refeitório, na sala do capítulo, na livraria, na horta, o abade dá-lo-ia por fugido, haveria infinitas murmurações pelos cantos, mas, se algum dos irmãos soubesse do segredo, sobre brasas estaria, quem sabe se invejoso da fortuna do outro(...)
Depois, imaginou ela a caminho de Pedregulho que ele poderia estar em Mafra, que tinham se desencontrado no caminho e pôs-se a correr como uma doida, "tão extenuada por fora, duas noites sem dormir, tão resplandecendo por dentro, duas noites batalhando, alcança e deixa para trás os que vão à sagração, se se juntam tantos não caberão em Mafra. (...) desce Blimunda para casa, ali é o palácio do Visconde, estão soldados da guarda real à porta. (...) Empurrou a cancela do quintal, gritou, Baltazar, mas ninguém lhe apareceu."
À tardinha, chegaram Inês Antônio e Álvaro Diogo e a encontraram dormindo. pela manhã, esquecida de comer o pão, viu-os por dentro, vomitou e Inês achou que ao fim de todo este tempo poderia ela estar grávida.
O narrador nos anuncia que D. João V fez quarenta e um anos e que era 22 de outubro de 1730.
"Blimunda disse aos cunhados, Já volto. Desceu a ladeira para a vila deserta. Com a pressa, alguns moradores tinham deixado as portas e os postigos abertos. Os lumes estavam apagados, Blimunda foi à barraca buscar a manta e o alforje, entrou em casa, juntou o que podia de comida, uma escudela de pau, uma colher, algumas roupas suas, outras de Baltazar. Depois meteu tudo no alforje e saiu. Começava a escurecer, mas, agora, de nenhuma noite teria medo, se tão negra é a que leva dentro de si."
Vigésimo quinto
"Por onde passava, ficava um fermente de desassossego, os homens
não reconheciam as suas mulheres, que subitamente se punham a
olhar para eles, com pena de que não tivessem desaparecido, para
enfim poderem procurá-los."
Durante nove anos, Blimunda perambulou pelos caminhos de pó e lama, de branda areia e pedra aguda, neve. Ainda não queria morrer. Sabia que Baltazar estava vivo e se dispunha a procurá-lo por onde quer que fosse.
"Onde chegava, perguntava se tinham visto por ali um homem com estes e estes sinais, a mão esquerda de menos, e alto como um soldado da guarda real, barba toda grisalha, mas se entretanto a rapou, é uma cara que não se esquece, pelo menos não a esqueci ei, e tanto pode ter vindo pelas estradas de toda a gente, ou pelos carreiros que atravessam os campos, como pode ter caído dos ares, num pássaro de ferro e vimes entrançados, com uma vela preta, bolas de âmbar amarelo, e duas esferas de metal baço que contêm o maior segredo do universo, ainda que de tudo isto não restem mais que destroços, do homem e da ave."
Julgavam-na doida, mas ouvindo-lhe as demais sensatas palavras e ações, ficavam indecisos se aquilo que dizia era ou não falta de juízo completo. Passou a ser chamada de A Voadora, e sentava-se, então, às postas, ouvindo das mulheres as queixas. Por onde passava, as mulheres lamentavam, depois, que seus homens não tivessem também sumido, para que elas pudessem, ao menos, devotar-lhes um amor tão grande quanto o de Blimunda a Baltazar. E os homens, quando ela partia, ficavam tristes inexplicavelmente tristes.
Pouco faltou para que a tomassem como santa.
"Nove anos procurou Blimunda. Começou por contar as estações, depois perdeu-lhes o sentido. Nos primeiros tempos calculava as léguas que andava por dia, quatro, cinco, às vezes seis, mas depois confundiram-se-lhe os números, não tardou que o espaço e o tempo deixassem de ter significado, tudo se media em manhã, tarde, noite, chuva, soalheira, granizo, névoa e nevoeiro, caminho bom, caminho mau, encosta de subir, encosta de descer, planície, montanha, praia do mar, ribeira de rios, e rostos, milhares e milhares de rostos, rostos sem número que os dissesse, quantas vezes mais os que em Mafra se tinham juntado, e os por entre os rostos, os das mulheres para as perguntas, os dos homens para ver se neles estava a resposta."
Milhares de léguas andou Blimunda, quase sempre descalça, "Portugal inteiro esteve debaixo desses passos".
Voltava aos lugares por onde passara, sempre indagando. Seis vezes passara por Lisboa, esta, a que vinha agora, era a sétima. Sem comer, o tempo era chegado para ela. No Rossio, finalmente encontrou Baltazar. Havia lá um auto-de-fé. Eram onze os condenados à fogueira; entre eles, estava o brasileiro Antônio José da Silva, o Judeu, comediógrafo autor das Guerras de Alecrim e Manjerona.
"São onze os supliciados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltazar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda ."
Palavras finais:
"Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda."
Ler José Saramago é sempre um susto bom. E este é um romance especialíssimo.
A par da história de um rei sem escrúpulos e franciscanos ardilosos, existe a história magnífica de um amor longe da banalidade servil entre as criaturas. A par, também, dos sonhos de um rei de imortalizar-se por meio de uma obra monumental, um convento gigantesco e arraigado ao chão, está a leveza do sonho de um louco que queria voar numa passarola, de um músico que tocava um cravo magnífico, de um povo pobre e sem trabalho que se submetia a esforços sobre-humanos para erguer as paredes de um monumento nascido da ignomínia dos corações que perderam a razão para viver.
Essa rainha católica e seu cobertor de penas, seus sonhos libidinosos, seus filhos; esse rei pequeno e imbecil, que imaginava poder construir uma basílica como a de S. Pedro para constar da História do mundo, jamais nos abandonarão a memória pelo que significam do superficial e infeliz que às vezes a natureza humana guarda... mas aquele soldado maneta e aquela vidente desgrenhada são os símbolos mais claros da natureza humana: fortes e delicados, sinceros, embora rudes, eles são o que sonhamos: o Bem e a Liberdade, a sabedoria de existir belamente e sem preconceitos.
Guardados para sempre na alma de quem o livro lê, lá estarão eternamente Baltazar e suas "desparelhadas vestes", sua mão esquerda decepada pela guerra; os olhos ora verdes, ora azuis de Blimunda, olhos de "olhar por dentro" as criaturas, jamais poderão também ser esquecidos pelos leitores, não porque veem por dentro apenas, mas , sobretudo, porque enxergam um mundo mágico e desconhecido: o mundo que qualquer um de nós quereria ter habitado.
Carlos D. Perez em seu "Do gozo criador", diz que todo criador é um subversivo: "Ele o é por transcender aquilo que no gozo resiste ao saber; se a cultura reage contra a luz inesperada, fá-lo para preservar a estrutura do humano — ou seja, o seu invariante — da qual é guardiã."; Unamuno também se explica sobre isso: "Que uma coisa é a cultura e outra a luz. Isto é que há de se ter: luz."
Assim, é que termino este trabalho que me deu tanto prazer, dizendo que Saramago é luz e que os falantes de língua portuguesa se orgulham não do Nobel que nos deu, mas sobretudo do mundo que inventa e reinventa, para o qual, subversivamente, traz luz. Pura luz.

Salve Saramago e suas doces lições da liberdade de ser

Primeiras Estórias - A realidade ilusória em João Guimarães Rosa
Guimarães Rosa escreve sobre o humano, o sobrenatural, sobre o mundo, de uma maneira fantástica. A realidade em Guimarães é a realidade da alma, e por isso mesmo, é uma realidade ilusória.O conto “A terceira margem do rio”, de Primeiras Estórias, retrata o mundo de uma família que de uma hora para outra, vê seu pai abandonar a corrente da lida dita “normal”, para isolar-se no rio dentro de uma canoa. Uma história toda sem nomes, próprios, o narrador usa apenas “nosso pai”, “nossa mãe”. Os nomes já não importam mais, importa que cada um ocupe e desempenhe suas funções dentro do sistema familiar. Mas o pai, porém, abandona seu posto e vai encontrar a sua própria identidade, no meio do rio, vivendo numa realidade que para todos os outros é ilusória, mas que para ele é libertadora. O rio, a terceira margem é o canal que o leva a uma outra dimensão do real.É o que acontece também em “A menina de lá”. A cidade onde ela “Nhinhinha” vive já um ambiente cheio de imagens que conduzem à terceira margem.Um lugar isolado, marcado pelo tradicionalismo e crenças católicas cristã: a casa para trás da Serra do Mim, a cidade chamada Temor-de-Deus. E Nhinhinha que já nasceu aquém do limite entre a loucura e a lucidez, logo é considerada santa pela população da cidade. A realidade em que Nhinhinha vive é diferente das outras pessoas. Ela, porém, é mais sensível para enxergar o que ninguém mais enxerga o que mais ninguém vê, porque ela tem a calma contemplativa dos loucos, a doçura e a inocência das crianças. Nhinhinha é poética “Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança” - “A gente não vê quando o vento se acaba...” Guimarães é poético narrando o fantástico.Sôroco, sua mãe, sua filha, já não é tão fantástico quantos os dois primeiros, mas tem uma cena – os três últimos parágrafos – mais envolvente do que qualquer outra. Sôroco e uma multidão, tomados como num transe coletivo, cantando a canção de loucura que sua mãe e sua filha cantavam. Sôroco tinha naquela canção a sua identidade, apesar de negá-la enquanto as duas ainda estavam com ele. Restou então, assumir tal identidade, cantando o canto de loucura e aceitando a realidade que apesar da ilusória sempre foi dele.Fatalidade o nome do conto já é instigante, fatalidade, o inevitável. O conto narrado em primeira pessoa segue um padrão único do autor. O narrador participa da ação é amigo do delegado, mas a questão levantada pelo conto é a respeito da vida e sua importância. Herculinão merecia a morte? Paira no ar o questionamento, a insignificância da vida. Meu Amigo é um personagem mistificado, ou seja, perfeito. Meticuloso e poeta, um paradoxo.No decorrer do conto encontramos várias reflexões sobre a vida, a morte entre elas destaquei as seguintes:Costumava afirmar:“A vida de um ser humano, entre outros seres humanos, é impossível, o que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio.” (pág 107)Segundo a citação acima, a vida é impossível entre seres humanos, o que vemos é apenas milagre, o milagre da vida, a existência, uma reflexão feita por um filósofo, poeta, um homem sensível, que questiona e argumenta afirmando em poucas palavras as diferenças entre os seres, a incompreensão dos seres ditos diferentes.Especulando:“Só quem entendia de tudo eram os gregos. A vida tem poucas possibilidades.” (pág 107)Aqui um tanto fatalista, os gregos antigos sábios, mitológicos, com sua religião politeísta, sempre com explicações para fenômenos deuses que representam o magnífico da vida, fantástico, o ar a água, eram sábios, suas respostas estavam além da vida, algo imaterial desejável. Guimarães Rosa deixa explicito o caráter dado à obra, filosófica e fatalista.Do que disse:“Se o destino são componentes consecutivas – além das circunstâncias gerais de pessoas, tempo e lugar ... e o Karma ...” (pág. 108).O Karma é uma realidade ilusória, céticos trazemos conosco nossos karmas passados, é sobrenatural, ratifica o tom ilusório e sublime da obra.O homenzinho franzino trás ao delegado seus problemas, ódio, descontentamento quanto ao suposto cortejo feito a sua esposa pelo personagem Herculinão Socó. Um homem enciumado, simples e ingênuo que tem honra a ser defendida, não admite que homem olhe para sua esposa como Herculinão Socó ousou fazer, homenzinho Zé Centeralfe apesar de sentir-se ofendido, tentou evitar o inevitável, mudou-se com a esposa, em busca de paz, mas o homem os perseguiu, e novamente Zé Centeralfe e a esposa fugiram do inevitável, destino. Cansado porém de fugir, buscou ajuda junto a lei. Em uma tocaia Herculinão Socó foi abatido sem direito a reação, sem saber de onde partiu o tiro fatal. O delegado “Meu Amigo” na sua realidade ilusória compara-se ao heróico Aquiles, frio e calculista, procura forjar a atitude tomada – “Resistência à prisão constatada...”(pág 112) - e reflete o vivenciar, terra inabitada sem lei, vida sem valor, como provado foi.Seqüência o conto preferido de Guimarães Rosa sem dúvida o melhor, o que tem mais beleza o espaço simbólico da existência. Seqüência narra a trajetória de uma vaca, animal sagrado o moço filho do fazendeiro Rigério dono da Pedra resolve tomar iniciativa e capturar a vaca. Não sabendo seu destino incerto, a vaca astuta leva-o ao seu destino inesperado.Refletir ao ler o conto sobre o destino de alguém, que por via das dúvidas é levado sem revoga ao que lhe parece iminente o amor.O rapaz apresenta as fraquezas e objetivos do ser em busca de algo, passa por um momento de desistência, mas a sua honra fala mais alto.“Pensou palavra. O estúpido em que se julgava. Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o levava? O incomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? Triste em torno”. (pág 115).O personagem entra em atrito consigo mesmo, ele sabe que está fazendo algo absurdo, mas incontestavelmente segue sua busca.A vaca com singela volta para casa com sua missão realizada, unir duas almas que decerto se procuravam.“O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: - ‘É sua.’ Suas duas almas se transformavam? E tudo à razão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.”(pág 118).Os irmãos Dagobé o conto inesperado, aqui Guimarães Rosa mostra as duas faces da humanidade o bem e o mal. Um homem respeitado de paz é afrontado por Damastor Dagobé um homem cuja natureza é obscura, homem violento assassino cruel, manda e desmanda com arrogância e prepotência, desafia o pobre Liojorge que num gesto de defesa acaba matando do seu oponente.A realidade ilusória, realidade o bem e o mal o ilusório a precipitação do julgamento, por fim o principio de reversibilidade, onde tudo que era esperado enfim foi-se quebrado, derrubado. As pessoas se preparavam para o pior, mas a atitude tomada por Liojorge torna o inevitável em inexistente, mostra o valor de um homem honrado isento de culpa, mas culpado por dentro, vai atrás da sua sentença não procura fugir como um rato amedrontado, mas enfrenta seu destino com coragem e astúcia digna de predadores. Liojorge, porém tenta se retratar do mal feito, e acaba aliviando os irmãos Dagobé da defesa da honra familiar.Por fim o irmão sucessor da liderança da família reconhece os defeitos do falecido com respeito e sinceridade, liberta em tom de perdão o assassino do irmão.“Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso Irmão é que era um diabo de danado ...” (pág 78)Aqui Guimarães Rosa deixa explicito uma critica as ordens cegas e desmedidas de ditadores, que não agradam, mas são temidos. O eterno obedecer dos pobres.A libertação dos irmãos Dagobé do regime regido pelo irmão falecido, na realidade todos os presentes no velório estavam agradecidos a Liojorge.O filme “A terceira margem do rio” faz uma mixagem de alguns contos de Guimarães Rosa, usa o mesmo ator para representar os personagens principais, o gancho dado para ligar uma obra à outra é imperceptível às pessoas que não tenham tido acesso às obras, torna o filme um único conto.A visão dada pelo filme quebra o encanto do conto lido, são artes diferentes embora estejam ligadas. “A menina de lá” é fantástico no filme, chama atenção, ficando então no plano central. O pai da menina e a menina são seres fantásticos pertencentes ao lado de lá. A obra principal dá nome ao título e a central divide a obra. Terminando com ensejo inicial a margem do rio.Apesar de antigo e sem as técnicas usadas nos filmes atuais do cinema mundial, vemos o esforço e simplicidade transformada em obra prima do cinema nacional.
Postado por Patrícia H.
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